quinta-feira, 25 de abril de 2013

XII


Ao passo que desenvolvo uma leitura crítica e radical ao pensamento marxiano para extirpar do pensamento social toda ortodoxia das formas de pensamento engessadas e de pouco  poder discursivo sobre o conteúdo de natureza e forma marxista, opero assim a prova dos 9 de Karl Marx. Para abrir caminho ao pensamento mais contemporâneo em regime de análise e crítica. Enquanto isso, segue o link para um texto meu sobre Norbert Elias e a Teoria Simbólica publicado recentemente no Blog Café com Sociologia, que com a capitania de Cristiano Bodart e Roniel Sampaio, estes que também organizam a Revista Acadêmica Café com Sociologia, uma bela inciativa para o pensamento sociológico no Brasil.

                                                                 


                                            ( *22. 6. 1897 - +1. 8. 1990 )

sábado, 13 de abril de 2013

LAUDA X


Pierre Bourdieu: Por uma macrossociologia entre campos e habitus, estruturas e práticas no contemporâneo.



“A máquina de costura só foi inventada quando as pessoas deixaram de imitar os gestos da costureira: sem dúvida, a sociologia tiraria a melhor lição de uma justa representação da epistemologia das ciências da natureza se se empenhasse em proceder à verificação permanente de que está construindo verdadeiramente máquinas de costura, em vez de transpor, de forma irrelevante, os gestos espontâneos da prática ingênua” (BOURDIEU, P.,CHAMBOREDON, J-C., PASSERON, J-C. Ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia.4ª Ed.. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004, p.36)
Introdução

No exercício de construção de uma literatura científica, com bases em vista da formação de um novo paradigma teórico, metodológico e epistemológico para as Ciências Sociais, a obra do francês Pierre Bourdieu (1930 – 2002) é um rico e ilustrativo exemplo da possibilidade de uma concatenação e orquestração de postulados clássicos, para fins de estabelecer premissas que possam corroborar na busca por esquemas de interpretação da realidade social e do lugar do sociólogo na atualidade.

Assim, no percurso povoado por obras como Profissão de Sociólogo: Preliminares epistemológicas[4] (1999), O senso prático (2009), A economia das trocas simbólicas entre outras, se espraia, de tal maneira, num vasto horizonte intelectual uma perspectiva crítica de síntese do pensamento clássicos em sociologia, desdobrando-se numa abordagem construtivista estrutural – macrossociológica – dos fenômenos sociais e suas relações com os indivíduos e de forma que o mundo social que é visto, entendido e interpretado à luz de um complexo de conceitos e categorias tais como habitus, campos, práticas, estruturas estruturantes, estruturas estruturadas, o que se revela enquanto estratégia teórica encarnada em um aporte metodológico rígido que possibilita por sua vez a emergência de um protótipo epistemológico relacional onde se funda traços da ciência social moderna.

Logo, apresentados a esse prisma, breve e rarefeito, do pensamento do sociólogo francês em questão, possamos agora nos aprofundar numa busca por uma visão analítica e uma compreensão ainda que recortada de pontos cruciais da estrutura de pensamento deste cientista social de nosso tempo.

I – A práxis da ruptura, o ofício e a vigilância científica: A epistemologia como balança entre a teoria, método e objeto de pesquisa Ciência Sociais.

Em Bourdieu, o anseio pela “modelagem” de novas formas de construção dos pontos de vista críticos acerca do real são quase obsessão, desde a Miséria do Mundo com suas entrevistas e engenho de dados quantitativos aliados a depoimentos onde se ouve o eco da subjetividade, aparece uma nova proposta, de certa forma, onde alinham-se a técnica do pesquisador ao olhar mais apurado desenvolvido sobre seu objeto, ou seja, uma espécie de “práxis cientifica” se origina no seio do pensamento social; o que por sua vez requer do sujeito pesquisador uma consciência do seu trabalho no qual uma “distinção” entre as formas de conhecimento se elaboram, a partir da qual se opera uma insidiosa relação entre “comunidade científica” que legitima, avalia e coordena os valores da “atividade científica” o que apresenta no contexto da sociologia  do conhecimento como “força” que age no campo afim de conter e administrar as rupturas causadas por revoluções científicas as quais transformam os movimentos internos da prática teórica  bem como seus paradigmas e os pontos de partida para a construção de hipóteses e como desenvolvê-las em face as contradições que se evidenciam na práxis da pesquisa empírica – rompimento com o senso comum, vigilância científica – em decorrência do complexo crítico entre metodologias e orientações epistemológicas que norteiam o fazer sociológico e suas nuances.

II. A lógica sociológica: a ossatura e o holograma da teoria social bourdiana.

A sociologia é o plano cartesiano onde se ligam ponto a ponto os pressupostos da teoria social e das ciências humanas como um todo abrangente e (ina)harmônico  no qual se agregam possibilidades de apontar caminhos para o estudo da vida em sociedade.

Nesse sentido, o autor em questão, ao abordar um elaborado arquipélago de conceitos, nos lega um conjunto de chaves interdependentes e suas implicações. O que diz respeito às questões de aplicação a uma realidade específica, nos atentaremos para o campo das Artes. Sobre o qual Bourdieu explicita e delineia contornos através dos quais categorias como estrutura, habitus[11] – “arte de inventar” que “confere as práticas sua independência relativa em relação às determinações exteriores do presente imediato” – e práticas[12] – “atividade real como tal” – ganhar forma de maneira que a impressão refletida da teoria permite um debate sobre alcance e validade do projeto teórico de Bourdieu.

É mister partirmos do esclarecimento de que  para o artista das estruturas servem como instâncias de consagração sejam as academias, os museus, as universidades, no livro Amor pela arte, Bourdieu explana sobre o fazer artístico, as relações entre os espaços de exposição da prática artísitca e seu encontro com o público. A imprensa, as editoras, toda a estrutura que aloca e mobiliza as forças em torno da obra de arte funcionam como agentes que acionam e dão margem de crescimento do capital cultural, social e simbólico da obra de arte a ser produzida.

Já na obra o Senso Prático...

“Nada é mais enganador do que a ilusão retrospectiva que revela o conjunto dos traços de uma vida, tais como as obras de um artista ou os acontecimentos de uma biografia, como a realização de uma essência que lhes preexistiria: da mesma maneira que a verdade de um estilo artístico não está inscrita em germe em uma inspiração original, mas se define e se redefine continuamente na dialética da intenção de objetivação e da intenção já objetivada, da mesma maneira é pela confrontação entre as questões que não existem senão pelo e para um espírito armado de um tipo determinado de esquemas e de soluções obtidas pela aplicação desses mesmos esquemas, mas capazes de transformá-los, que se constitui essa unidade de sentido que, retrospectivamente, pode parecer ter precedido os atos e as obras anunciadoras da significação final, transformando retroativamente os diferentes momentos da série temporal em simples esboços preparatórios” (BOURDIEU, 2009, p.91)

O artista por sua vez, que é indivíduo, mas que é imagem e representação de um grupo, é ele quem incorpora uma coletividade de maneira que corporifica gostos e assume posturas, aponta estéticas e identifica tendências para engendrar um olhar e uma prática social consubstanciada num habitus – ainda que considerando as “dificuldades propriamente científicas que faz surgir” – que se forma na condição em que se estabelece no “jogo” do sujeito ou do seu grupo diante das classes sociais – que são configurados pela lógica da dominação entre os grupos dominantes e dominados – do capital econômico, político, sendo que a identificação se apresenta de acordo ao contexto das relações de poder e suas condicionantes o que aproxima a teoria do real.

III. “A Revolução não vai passar na TV”: Os limites da transformação e a reprodução social.

O arguto edifício intelectual, erigido pelos argumentos de Bourdieu, no decorrer da sua obra, nos possibilitam avistar um avatar através do qual a teoria social é um corpo de estruturas de pensamento e percepção da realidade arquitetadas, de modo tal, que o arranjo entre as forças que agem no interior da dinâmica social aparecem cimentadas sob o jugo da relação entre ordem – consubstanciada na força do habitus como nos diz, o autor em Senso Prático, que
 “nas formações sociais em que a reprodução das relações de dominação (e do capital econômico ou cultural) não é garantida pelos mecanismos objetivos, o incessante trabalho necessário para manter as relações de dependência pessoal estaria de antemão destinado ao fracasso caso ele não pudesse contar com a constância do habitus, isto é, o organismo que como grupo dele se apropriou e que ele é de antemão atribuído às exigências do grupo, funciona como a materialização da matéria coletiva, reproduzindo nos sucessores a aquisição dos predecessores” (BOURDIEU, 2009, p.90)
Além das normas e o conflito entre dominantes e dominados adornada pelas interações “sociais”, “simbólicas”, “econômicas”, “políticas” e “culturais” que tem por princípio a relação com o capital em suas mais variadas formas.

Tomando por base as multifacetas do sistema social capitalista, a teoria do francês, vêm com o intuito de trazer à tona um método que possa abarcar epistemológica e a sociologicamente as mais variadas gradações de manifestação das formas de dominação ou premiação que o processo coletivo oferece.
Por sua vez, nessa tarefa imposta a um projeto intelectual de tamanha envergadura nós conjecturamos entre outros entre outros desdobramentos, a limitação de transformação social, já que os movimentos societais, comandam as práticas sociais. O que nos revela a predominância da estrutura sobre o sujeito, do método e teoria em relação dialética com o objeto e da relação dialógica entre empiria e epistemologia em sociologia; assinalando de forma categórica o soerguimento da reprodução social como força de conservação da substância social.

IV – Considerações preliminares: Uma teoria, sua crítica e o não fim da análise.

Tendo partido em busca de uma fonte de recursos que salientassem os destaques no arcabouço teórico, metodológico epistemológico e indicassem sinais de cognição da sociologia e da sociologia do conhecimento de Bourdieu, encontrou-se pelo caminho uma ideia contundente de distanciamento no que tange ao ofício do sociólogo para que seja possível a produção de um método a partir do real e com bases empíricas sólidas, além de estar aliada a uma constante vigilância contra o espontaneismo de sociologias efêmeras.
Trata-se de escapar ao realismo da estrutura ao qual o objetivismo, momento necessário da ruptura com a experiência primeira e da construção das relações objetivas, conduz necessariamente quando hipostasia essas relações ao tratá-las como realidades já constituídas fora da história do individuo e do grupo, sem recair, no entanto, no subjetivismo, totalmente incapaz de dar conta da necessidade do mundo social: para isso, é preciso retornar a prática, lugar da dialética do opus operatum e do modus operandi, dos produtos objetivados e dos produtos incorporados da prática histórica, das estruturas e dos habitus. (BOURDIEU, 2009, p.86-87)
Deparamos-nos também com a tradição francesa bem representada nos conceitos de estrutura e seu envolvimento direto com a noção de construtivismo em face a objetividade nas ciências sociais, operando assim “um questionamento radical do modo de pensamento objetivista”, logo

“A teoria da prática como a prática evoca, contra o materialismo positivista, que os objetos são construídos, e não passivamente registrados e, contra o idealismo intelectualista, que o princípio dessa construção é o sistema das disposições estruturadas e estruturantes que se constitui na prática e que é sempre orientado para funções práticas.” (BOURDIEU, 2009, p.86)

Aparece também o lugar da praxeologia. Além de que a leitura de uma miscelânea de textos aponta para a coleção de abordagens dos conceitos e suas complexas aplicações e explicações. Pois que em vários aspectos os conceitos se adequam aos objetos das teorias e as relações que estas estabelecem com seus objetos frente a premissas metodológicas e pressupostos epistemológicos.

Enfim, preliminarmente surge do mosaico de vertentes do ambiente intelectual resultante da leitura crítica e analítica de parte da vasta obra deste autor, que a essência das suas arregimentações esta repousada sobre a lógica do “jogo” pela dominação e a função social que possui, ainda, uma  noção coletiva de hierarquia, em suas mais variadas formas e fontes de poder, que se apresentam no contexto da modernidade.





[11] “sistemas de disposições duráveis e transponíveis, estruturas estruturadas e predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como princípios geradores de práticas e de representações que podem ser objetivamente adaptadas ao seu objetivo sem supor a intenção consciente de fins e o domínio expresso das operações necessárias para alcança-los, objetivamente “ reguladas” e “regulares” sem nada ser o produto da obediência a algumas regras e, sendo tudo isso, coletivamente orquestradas sem ser o produto da ação organizadora de um maestro. (BOURDIEU, 2009, p.86)

[12] “Só se pode explicá-las, portanto, com a condição de relacionar as condições sociais nas quais se constituiu o habitus  que as engendrou e as condições sociais nas quais ele é posto em \ação, ou seja, com a condição de operar pelo trabalho cientifico a relação desses dois estados do mundo social que o habitus efetua, ao ocultá-lo na e pela prática” (BOURDIEU, 2009, p.93)

LAUDA IX

Entre o Sujeito e o Objeto há o Método: a influência de Comte e do Positivismo na Sociologia e em seu nascimento.


A ideia e concepção de ciência segundo a corrente filosófica positivista, deu início a uma nova forma de pensar e produzir conhecimento no século 19, encontrando em Auguste Comte seu óvulo imanente. Assim, tem-se sobre as mais diversas áreas do conhecimento, entre elas a Sociologia, que a partir do movimento positivista emerge enquanto ciência empírica, as mais variadas formas de transformação de paradigmas na transição do sistema filosófico clássico para a era das ciências modernas com a condição de imposição de limites lógicos e paradigmáticos, mais pragmáticos, para uma outra possível interpretação e explicação da realidade.

Logo, acontece a necessidade de instauração de novos métodos através das conceituações e ramificações das categorias em gêneros e espécies, possibilitando a Sociologia, ciência recém inaugurada, uma metodologia devidamente mais apropriada, segundo a estruturação da ciência enquanto pensamento positivista nos moldes comteanos, para a análise e observação e explicação determinando as causas e os efeitos das manifestações da fenomenologia social aparente.

De tal modo que, as fronteiras da filosofia são circunscritas no limiar da especulação filosoficamente hermenêutica do positivismo, o que permitiram a Durkheim metodologizar a principiologia que iria reger as ciências humanas como um todo durante tão profícuo século. A função e papel de importância que cumpre o positivismo é a possibilidade de abstrair da realidade um conjunto de regras e normas, dentro de um desenvolvimento cientificista através da busca de padrões e médias no comportamento do corpus social numa análise baseada no empirismo, que originem paradigmas para a consubstanciação das manifestações das esferas societais e suas explicações possíveis.

Do Conceitualismo: Durkheim e o conceito de solidariedade social.

Por conseguinte, o desvelamento de conceitos operados por Durkheim no interior de uma ciência da envergadura da Sociologia, são desde seus alicerces fundantes, ou seja,  caracteres de princípios  de contra pontos firmes às correntes sociológicas, desdobraram-se doravante os estudos do autor de O Suicídio. 

Entre eles na sua tese de doutorado – Da divisão do trabalho social – encontra-se uma das suas ideias centrais e uma bela caracterização de um possível organograma social. A forma e a organização da sociedade a partir do trabalho têm impactos e dispersa influências preponderantes no universo da cosmogonia Sociológica de então.

Pois que, passamos a um entendimento no qual a sociedade tendo como pressuposto a supremacia do todo sobre as partes, justificaríamos de antemão a hegemonia do coletivo sobre o individual e a lógica da reprodução pela representação e a lógica da reprodução pela representação teria mais um conjunto de bases intelectualmente estáveis.

De sobremodo que essa individualização do coletivo por parte do ser social do sujeito, se daria através de suas especificidades técnicas e práticas evidenciadas, sobretudo, no trabalho, o que decorreria a todas as suas manifestações em sociedade.

Não obstante, em seu conceito de Solidariedade Social a “consciência coletiva” sobrepuja a individualidade, onde um “sujeito social” prenhe de uma gama de “objetos subjetivos” como sentimentos, valores, e entes sagrados comuns insere-se na dinâmica societal em função da coletividade reproduzindo seus hábitos e crenças e se  materializam corolário a execução das letras jurídicas, qual no tocante a aplicação do ordenamento penal (conceitualização e exemplificação do fato social).

Consolidada assim a interação simbiótica entre individuo e sociedade, percebe-se o imbricamento do “eu” na superestrutura societal e a categorização dos paradigmas durkheimianos para não só descrever, mas explicar os modos de intercomunicação entre o ser social e a sociedade.


Cachoeira 13.04.2010.

segunda-feira, 25 de março de 2013

LAUDA VIII


 Sobre o grafite e Gombrich, Giddens, Baudrillar e Bourdieu.


Gombrich me interessa sim, principalmente as questões que ele propõe sobre norma e forma, só que tenho partido em busca de uma construção de uma sociologia da arte, ou melhor uma sociologia da cultura moderna, eminentemente moderna, e isso requer que eu delimite minha noção de moderno, mas com certeza recorrei a ele para algumas definições.

Falo dos anos 60 como ponto de inflexão do século 20, ainda num processo que ocorre dentro da própria modernidade, mas alguns autores como Habermas apontam Nietsche como ponto de virada da modernidade para a pós-modernidade.

No entanto, nossa hipótese de trabalho, por exemplo, não assume a propriedade do debate sobre o conceito de pós-modernidade; as noções de “desencaixe” e “compressão espaço tempo”, identificadas em Giddens são interessantes a partir do momento que incidem sobre a observação das formas de comportamento social, e, consequentemente, das formas de produzir e perceber a obra de arte, já que é na esfera das belas artes que a modernidade tem origem enquanto fenômeno social em percepção, análise e crítica.

Penso que, em relação a relativizações, é preciso ser precavido, já que a radicalidade das formas sociais e culturais que, passam por um processo de hiperrealismo, nos leva a construção de uma realidade simbólica que se sobrepuja esmagadoramente a realidade material e econômica.

Assim, a dimensão fantasmagórica da mercadoria (desde o corpo até as práticas dos sujeitos, no nosso caso os artistas), como correlato da vida em sociedade e sua fundamentação objetiva, como apontou Marx, nos direciona para a percepção de que o mundo que Baudrillar descreve em "simulacros" se efetiva a partir da reprodução de projeções derivadas dos bens simbólicos, os quais possuem um conteúdo de potente significado e sentido que são abstraídos da forma objetiva da mercadoria.

A obra de arte, enquanto forma mercadoria, revela que, o contato e a mediação entre a intenção do artista de comunicar, está resguardada no conteúdo pleno de sentido e significação que a obra comunica. Esse conteúdo é a natureza “espiritual”, estética e filosófica que preenche a expressão artística e atribui e configura as condições de existência da obra.

Na Modernidade, esta forma histórica preenhe de conservantismo, formas colonialistas conservadoras e conservadas, num processo de subjugação das expressões contra-hegemônicas, ideologia da exclusão e invisibilização na luta pela dominação, uma resistência se coloca tomando o grafite como objeto; ainda é possível ante aquilo que se sobrepõe à arquitetura e ao audiovisual?

O grafitti é a imagem plástica em seu sentido mais orgânico no movimento de forças de uma sociedade urbana capitalista pós industrial no ocidente, é a expressão do conflito entre valores estabelecidos e crítica social, através da obra de arte, já que tem como fundo o áudio da cidade, a luz natural do sol e artificial dos postes, e, como fim, a consciência social e histórica da sociedade numa perspectiva de crítica radical às formas de arte coisificadas no mercado de bens simbólicos da economia burguesa mais desenvolvida.

Essa negação da arte "livre" simplesmente vem pela necessidade de atribuir sentido e significado ao sistema de ordem política e econômica na qual os objetos de arte são submergidos a fim de produzirem lucros materiais por via de seus mecanismos de representação do mundo social, e antes pela capacidade de simbolização de uma esfera da vida social.

Assim, não consideramos aqui, o "fim da arte", mas sim, a determinação do mundo social pelo mundo cultural, e isso se torna mais agudo no contexto da década de 60, só que, a partir daí, tomo esse período como modernidade radicalizada, para poder entender como, por exemplo, o grafitti que marca o muro de Berlim, até o final dos anos 90 não era considerado arte, por parte de alguns teóricos da estética na era contemporânea, como Dabney Towsend que diz :
"Se o grafitti se tornar arte, passaremos a olhar pra edifícios e para as palavras sob uma nova perspectiva." ( Townsend, 1997, p.150)

Reitera-se o lugar de centralidade do mercado na manifestação das relações sociais e até nos processos de socialização. Agora  observa-se a compreensão da manifestação da obra de arte,  que então até os limites do modernismo, configura uma série de sistemas e formas de consumo e fruição que vão além da produção da arte moderna, como se a arte ultrapassasse os contornos da conjuntura estabelecida para sua objetivação enquanto tal. 

É mister encontrar lugar para obra de arte nessa era do consumo, se por exemplo, o grafite não pode ser vendido como uma tela, mas pode ser encomendado e feito em espaços públicos ou privados como muralismo e hoje em dia já existe até bienal do grafite. 

Mas ainda, a questão sobre o moderno é que, se não há definição para o contemporâneo que começa provavelmente depois dos anos 60, não sei se é um referencial, e menos ainda se compartilhamos deste ponto de partida, mas os fenômenos artísticos que se emancipam da esfera das galerias, exposições, da academia, etc., como arte publicitária por exemplo, de que forma podem ser entendidas a partir dos movimentos nas esferas da cultura?

Enfim, a questão do mercado é um ponto central sobre o qual Bourdieu destaca e sustenta a possibilidade autonomia (relativa) do campo artístico, e que esta só se efetiva quanto se estabelece o “mercado dos bens simbólicos” e isso em sua devida forma eminentemente moderna, como é estabelecida, manifestada e definida na modernidade.

segunda-feira, 4 de março de 2013

LAUDA VII

Émile Durkheim: breves notas.

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Nas Regras do Método Sociológico, obra que é pedra angular nos estudos paradigmáticos e metodológicos em ciências sociais, Émile Durkheim (1858-1917) expõe sobriamente os princípios que irão reger a investigação e atividade sociológica dali em então.


Na busca por estabelecer bases sólidas ele vale-se das relações de causa e efeito e do sistema comparativo em alta na etnologia que por hora também se desenvolvia, a saber, que o processo histórico na teoria durkhemiana pode ser visto enquanto um laboratório do social, uma coleção de elementos e fatos que permitam perceber uma um encadeamento e por sua vez uma possibilidade de concatenar de forma harmônica no intento por buscar um equilíbrio através da concepção de uma possível morfologia na qual o sistema social agindo de modo determinante sobre as “consciências individuais” possibilitam a perpetuação dos fatos sociais.

Dessa maneira o autor demonstra as premissas que vão nortear o desenvolvimento do pensamento social científico estabelecido em parâmetros que questionaram de maneira crítica as relações entre teoria social e reprodução social no alvo da manutenção das estruturas e mecanismos de funcionamento do arquipélago de eventos que compõe o “sociaux”.
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No bojo da sociologia de Durkheim se elabora um conjunto de argumentos revestidos em conceitos, classes e categorias que visam modelar o real a partir da pujança das formas societais.

De tal maneira, a religião – instituição social que reúne uma maneira de proceder sobre a realidade que se impõem sobre o processo de estabelecimento da relação entre o homem e o mundo – produz por sua vez uma cosmologia, ou seja, uma cosmovisão que se formula de modo a estruturar o modelo de compreensão da consciência particular a partir das representações sociais da consciência coletiva.

Assim no escopo do corpus de instrumentos utilizados para interpretar, ou melhor, apreender o real, exterior, sensível ao indivíduo se configura uma série de aparatos de conhecer o real. De forma que no interior da escola sociológica francesa, uma teoria do conhecimento se conjectura medianamente crítica ao empiricismo inglês e a redefinição das linhas que contornam a concepção do neo criticismo kantiano.
Redefinindo os pressupostos epistemológicos nos quais a ideia da razão é posta de maneira relacional ao conceito de empirismo no modo de interagir com o real, emergem assim postulados que comportam a consciência e seus fenômenos em seus níveis de percepção configurados no seu ousado plano das categorias fundamentais do entendimento humano além de ver nos fenômenos sociais a manifestação da dominação das estruturas coletivas sobre as estruturas de cognição individual.

A coisa sui generis que é a experiência do “sociaux” é o movimento que estipula e corporifica o paradigma de Durkheim no tocante as relações do sujeito cognoscente frente ao objeto cognoscível, bem como para entender e explicar todo amplo complexo que se estabelece no seio das relações que acontecem no ambiente das práticas religiosas.
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Categoricamente, sua visão considera acerca do sistema religiosos e consequentemente a identificação de uma economia sistemática de produção de valores, morais, éticas e, por conseguinte, da criação de formas materiais que representem uma interface entre o homem e o sagrado.

Seja de maneira concreta nos totens e símbolos, ou de forma performática e ritualística nos cultos ou celebrações cerimoniais, as ações nas quais se cristaliza o conceito de religião para nosso autor, está indubitavelmente atrelado a parte que cabe ao todo social e sua função, poder e lugar de importância na esfera da arquitetura dos movimentos societais, onde a espontaneidade aparece como projeção ideal e metafísica da vida material objetiva.

E entendendo os seres espirituais que agem no organograma religioso como parte que esta além de si mesmo, no que diz respeito ao indivíduo, o qual encontra a dimensão espiritual no dialogo da consciência individual com a entidade suprassensorial que é o todo social em sua expressão plena de influência e somatismo no ser social, ou seja, a produção da crença enquanto valor compartilhado que permite a percepção de um ponto de vista e referencial comum.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

LAUDA VI





O cientista social entre o distanciamento do objeto e a produção de conhecimento nas Ciências Sociais: Comte-Durkheim, Dilthey-Weber e o pensamento social europeu entre a França e a Alemanha.
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Se o capitalismo é caracterizado entre outras formas pela concorrência, no plano da corrida pela hegemonia intelectual esse traço é ainda mais agudo, senão dizer inevitável. O processo de dominação social, política e econômica no ocidente perpassa de maneira profunda o plano da cultura, mais especificadamente o construto das ideias e, por conseguinte, das práticas que regem a vida social.

Pós revolução industrial e revolução francesa, tem-se um contexto de supremacia do ideário da modernidade racionalista iluminista.Tendo ocorrido na Inglaterra, o empirismo de Bacon e na França os fenômenos desde o enciclopedismo, como a exemplo, a sistematização do poder político de Montesquieu, se encaminhou, então, a humanidade à uma era sem precedentes e que ainda não se pode medir suas irreversíveis consequências.

Nesse contexto, as inquietações a fim de produzir uma cosmovisão que dê conta de contornar as questões sociais, postas para a nova sociedade em formação/transformação, era necessário o surgimento, não só de uma outra forma de conhecimento, mas de uma nova ciência propriamente dita.

O estudo de formas e fenômenos sociais, pressupõe um conjunto de técnicas e instrumentos para a investigação da realidade social, este conjunto configura o método. Esse articulado entre estratégias e procedimentos, práticas e equipamentos intelectuais, permite ao sujeito investigador percorrer um caminho no processo de produção do conhecimento. Caminho no processo de produção do conhecimento. Caminho este que pode ser refeito ou posto em crise, pelo cientista que o suceder.

A ritualística, até então representada, compõe o cenário da práxis científica no que toca a operação e observação da experiência no campo científico. Nesse sentido, na grande área das ciências sociais, emergiram do prisma da racionalização três grandes tradições: o materialismo histórico dialético, o funcionalismo e a hermenêutica para uma sociologia compreensiva.

Neste universo epistemológico, onde concorrem sistemas de pensamento, que ora prezam pelo movimento e pela transformação, ora pela harmonia e estabilidade, ou então, pelo paradigma da interpretação (respectiva ao parágrafo anterior) o cientista social, se vê crítico, ante o espelho da tradição.
Com o fim do romantismo, na segunda metade do século 18 e os desenvolvimentos, por exemplo, de Humboldt, a Alemanha que havia operado com Goethe uma espécie de instauração de uma cultura de civilização, vê nos avanços oriundos de uma nova reunião de intelectuais num círculo da alta burguesia alemã no início do século 19, a aparição da sociologia compreensiva que nasce sob a égide da hermenêutica e postula métodos para interpretação do social, a partir da distinção entre explicação (eklaren) e a compreensão (verthsen) desenvolvidas entre outros, por Dilthey. Enquanto na França, Augusto Comte, reuni as mais variadas orientações das ciências naturais e aplica numa perspectiva de fundacionismo filosófico para o tratamento dos fenômenos sociais. Desde a física social ou até mesmo recursos estatísticos da matemática são invocados para significar a filosofia positiva.

As administrações de Weber, por parte da tradição alemã, e de Durkheim, da tradição francesa, apontaram durante o século 19 e, até hoje, para a leitura do todo social com distinções que vão desde o lugar da história, o tratamento do materialismo, a contradição entre dedução e indução, a determinação da parte pelo todo, do sentido no praticar e no coletivo, na propedêutica acerca de questões às ciências sociais, até hoje centrais, como trabalho e religião.

Considerando em especial a premissa postulada pelo pensador alemão Max Weber que assinala sua empreitada metodológica com a noção de “neutralidade axiológica”, nos encontramos aí neste ponto com uma problemática de tal relevância que nos faz inferir sobre a gênese da teoria social moderna, quiça dizer até mesmo que o paradigma que orienta as relações entre sujeito e objeto se altera com o tempo, com a filosofia dominante e as abordagens que predominam em dado período, nos arriscando a categorizar uma certa espécie de determinação de uma tipologia como historicismo analítico.

Nesse percurso do trajeto de fundação, criação e legitimação das Ciências Sociais, a necessidade de autoafirmação de uma maneira própria de fazer ciência e a busca por reconhecimento do saber produzido nesta esfera, levou os cientistas sociais do final do século 19 até o início do século 20, a exemplo de Weber, a desenvolverem soluções metodológicas e epistemológicas para o estabelecimento de uma normativa, que organizasse e pudesse justificar o conhecimento produzido nesta seara científica.

No caso especifico de Weber o recurso utilizado foi além da construção dos “modelos” através dos “tipos ideais” foi a busca por uma transparência metodológica, que tomou forma concreta no debate sobre a objetividade nas ciências sociais. A saída encontrada pelo autor alemão, que viveu nos EUA no começo do século passado e deu os traços finais a sua obra, antes de morrer, após retornar da América, revelou que uma tentativa para ausentar o pesquisador da parcialidade ou da classe social, raça, etnia, ideologia, interiores econômicos, ou relações de poder na qual se está envolvido, só seria possível se fosse operada uma suspensão, ou melhor, uma neutralização dos valores.No entanto, não podemos nunca esquecer que entre o individuo e a sociedade, o sujeito e o objeto, a alienação e a realidade, existe uma força que realiza uma mediação entre o olho que vê e a lente que ajuda a enxergar; a relação de interdependência entre a ação social e a história.

De forma que a “guerra” epistemológica das ciências sociais, do seu surgimento até hoje, demarca e circunscreve, ora o positivismo que caminhou até o estrutural funcionalismo parsoniano, ora a hermenêutica que alcançou uma forma contemporânea na “interpretação das culturas” de Geertz demonstrando o potencial reflexivo e plurissignificativo no processo de produção do conhecimento em ciências sociais bem como, a manutenção de fidelidade à origem epistemológica a qual o pesquisador se sente afiliado e, que segue um macroprojeto de pensamento, representando uma tomada de posição e a assunção das consequências desta escolha entre alternativas postas como tais.

sábado, 15 de dezembro de 2012

LAUDA V



Emíle Durkheim (1858 — 1917) teórico francês, que estuda fontes de solidariedade, apontadas como mecânica primitiva, mostra de uma sociedade sem Estado e orgânica, caracterizada pela complexidade interdependência das economias e onde tem-se uma espécie de diferenciação obscurecida. Num desenvolvimento metodológico para sociologia, o francês opera seu pensamento cientifico através uma organização social orientada pelo trabalho, como expôs em Da divisão do trabalho social (1893). Dando ênfase no elemento não contratual do contrato, numa espécie de crítica a Spencer, articulando indivíduo e liberdade em função da obrigação social, dependente de um complexo jurídico, econômico, religioso e estético tem-se os "faits sociaux".
Em A Noção de Representação em Durkheim, ensaio de raro fôlego e profunda densidade e rigoroso grau analítico e perspicácia no que tange a aproximação das Ciências Sociais com a Filosofia em regime crítico, escrito por Fernando Pinheiro Filho, que utiliza de aspectos relevantes para discutir conceitos e categorias imprescindíveis para a compreensão do pensamento social do francês, nos apresentando um rico panorama interpretativo.

O exemplo, de As formas elementares da vida religiosa (1912), em que corpo e alma são vistos sob o ponto de mudança social, as "representações coletivas" derivando de certa "consciência coletiva" dariam contornos a uma espécie de "morfologia social" resultante num "simbolismo coletivo" que compreende "determinantes estruturais" "produto dessa determinação" coletiva. A religião vista enquanto um pensamento coextensivo, uma metainstituição numa relação entre crenças religiosas e cognitivas abarcando assim uma teoria geral das representações coletivas.

Em O Suicídio (1897) a vida coletiva é o sinônimo de suas próprias representações, a heurística opera a superação da epistemologia kantiana culminando numa sociologia do conhecimento. Uma evolução da concepção durkheimiana de representação, o neo criticismo: pós-kantismo. Na direção de uma fundamentação racional do conhecimento, mediando a natureza humana e as representações coletivas numa dualidade entre a sociologia das categorias e a teoria das representações.

O corpo, o indivíduo, aquele que se exprime diante do espírito, o pensamento social, a moral que toma a forma de outra coisa que não nós mesmos, resultado do encontro sensibilidade e razão, uma primeira dicotomia do pensamento de Kant, uma crítica ao apriorismo. Caminhando para a origem social dos problemas postos entre a sociologia e a filosofia entende-se com base na leitura, que "o espírito humano é um sistema de fenômenos tomado como coisa, objetivação que supera as idiossincrasias dos psiquismos individuais, ele revela através de sua origem na sociedade a sua verdadeira natureza." A imposição do sagrado, por exemplo, como operação psíquica de síntese das consequências individuais em que se dá sua gênese.

A sociedade que é a transcendência do eu e ao mesmo tempo fonte de humanidade do homem formando sua personalidade na e pela força coletiva, sendo os conteúdos da mente via de entrada para representações coletivas. A representação que enquanto processo de pensamento por percepção é ao passo conteúdo do processo emanando ou afetando a mente sendo capaz de fixar-se. Num misto de representações sensíveis (fluxos não cristalizados) e pensamento conceitual, representações coletivas, associação numa síntese de elementos dispersos no meio social, as representações coletivas remetem à natureza supraindividual do homem, exprime o ideal coletivo que tem origem na religião. São, portanto, impessoais e estáveis, comuns a todos na medida em que emanam da comunidade dos homens e assim, instrumentos de intelecção do mundo e comunicação entre razões individuais.

As representações coletivas, enquanto forma-conteúdo das relações sociais encontra no totemismo o instrumento de justaposição dos indivíduos e os supera na configuração sui generis, é imediatamente hipostasiado simbolicamente no totem do clã, como a força da associação dos homens.

Na religião tomada enquanto metainstituição, simbolização, síntese coletiva que objetiva-se no indivíduo. A totalidade põe em debate a sociologia das categorias e o neocriticismo, numa relação estabelecida entre as representações individuais e as representações coletivas, entendendo representação enquanto síntese preenhe de autonomia. A espiritualidade, característica dos fatos intelectuais, se torna representação social, quando o hiperespírito, a sociedade ("ser especial") totaliza, transpõe as representações coletivas já que o sentido dos conceitos está na realidade coletiva.

Aproximando-se de Kant, põe-se em debate o empirismo e o apriorismo, na busca de entendimento da gênese das representações coletivas na religião, com base em uma epistemologia sociológica dotada de universalidade, observação e experiência do fenômeno social, no qual o real é fundado na experiência do coletivo. Ainda que tempo e espaço precedem, a experiência, são leis do espírito. O real é aquilo que pode ser demonstrado, "é um tecido de relações entre o fenômeno e a coisas em si, sensibilidade e entendimento, representação em relação as categorias socialmente determinadas certame entre razão e experiência, uma superação sócio-filosófica da teoria do conhecimento”.