quarta-feira, 18 de setembro de 2013

LAUDA XVI


A Escola de Manchester, que atinge em cheio a antropologia inglesa com nomes como Vitor Turner, alcança o ponto de  crítica ao colonialismo.Num exercício de expressão e significação das opressões entre grupos, através de estudos de modernização das sociedades, revelando ecos das categorias marxistas na antropologia, com foco na ação social em relação a estrutura social envolvendo estudos acerca de impasses e conflitos observados na vivência intensa e "dramática" dos agentes e atores sociais, numa perspectiva em que a agência - ação, atitude contra a posição do sistema de reprodução social - se apresenta enquanto inovação das convenções sócio-culturais (a ossatura).

Nesse sentido, o culturalismo americano – de Boas – em relação a aculturação quando do encontro de culturas diversas forma uma Antropologia do paradoxo. Nos anos 60 nos EUA, vive-se a efervescência de questionamentos sobre os processos coloniais, numa espécie de oposição ao estruturalismo francês, na revelação de uma ambiguidade, quando se adota uma postura de inversão e anti-estrutura, numa espécie de suspensão.

Reconhecendo o ensaio sobre os abusos verbais de Edmund Leach e um outro texto para uma microssociologia do teatro do social a partir de Goffman tem-se, numa dialética entre o estrutural-funcionalismo e o funcional-estruturalismo, uma abordagem a partir do "drama social" enquanto unidade fundamental de análise com enredo e personagens.

Onde o Estado se apresenta num intricado jogo de oposição e conflitos, num ambiente onde a crise é superada por uma ação mediadora com a qual no desfecho se encontra o reforço da estrutura - reforço dos laços sociais entre grupos. O ritual, um sistema de símbolos equacionados, revelando uma interface entre sujeito, realidade (identificada como estrutura cotidiana), a anti-estrutura (como momento extraordinário) uma espécie de auto reflexão, que contribui para relativização da estrutura num jogo ambíguo, paradoxal e conflitante.

A consciência, sinônimo de agência revela uma transição sociológica, que aparece no texto "liminaridade e comunitas" que um ideal coletivo compartilhado é resultado de uma interação simbólica, normativa, valorativa e ideológica onde os sentidos e significados são dados de forma externa através do contexto histórico e social daquela forma cultural. A anti-estrutura, o estado liminar, representado por um modelo alternativo e por vezes espontâneo, de características episódicas, num ambiente efemérico no qual um fato processual é orientado pela regularidade.

Estrutura social e símbolo no contexto ritual.



Turner (1967) no texto "Liminaridade e Communitas " apresenta pontos críticos sobre as formas e atributos dos ritos de passagem; Arnold Van Gennep (1960) aponta "fase liminar" dos rites de passage "ritos que acompanham toda mudança de lugar, estado, posição social, de idade" apontando uma dialética entre "estado X transição".

"Status da função - condição estável, recorrente e culturalmente reconhecida. Onde os ritos de passagem ou transição: revelam momentos de separação, margem(limem) ou agregação. Levando em conta características como um comportamento simbólico (afastamento) do grupo, estrutura social (condições culturais) - "Estado", a situação "limiar" que representa o intermédio onde o sujeito ritual (o "transitante") entre estruturas "ambíguas" experimenta frente o domínio cultural de "reagregação" e "reincorporação".

O sujeito ritual pode ser individual ou coletivo, e possui direito e obrigações que são válidos dentro dum sistema de posições apresentado de um lado pela "Liminaridade" enquanto estado de personae das pessoas, ambiguidade entre as posições, leis, costumes, convenção e cerimonial através de simbolos que ritualizam as transições sociais e culturais, onde se desconstroem/constroem o status. 

A "Communitas" representa-se enquanto laços de casta, classe, ordens hierárquicas e posições segmentares. onde o a pessoa e personas sociais "é como se fossem reduzidas ou oprimidas até uma condição uniforme, para serem modeladas de novo e dotadas de outros poderes para se capacitarem a enfrentar sua nova situação de vida"(p.118)

"Nas iniciações com longo período de reclusão, tais como os ritos de circuncisão de muitas sociedades secretas, há frequentemente uma rica proliferação de símbolos" (p.118)

A liminaridade como momento de mistura, ambiguidade, atrelada a submissão e santidade bem como homogeneidade e camaradagem é como dar forma objetiva a um " momento situado dentro e fora do tempo", "dentro e fora da estrutura social" de maneira que "fragmentado em uma multiplicidade de laços estruturais".

Num "sistema estruturado", político, jurídico econômico o "comitatus", esse período liminar, não estruturado revela-se como área de vida em comum e que tem no "sagrado" um beneficiário dos "rites de paasage" que modera a questão do indivíduo.

"Reconhecer um laço humano essencial e genérico, sem o qual não poderia haver sociedade" ( p.119)

E assim dialeticamente, numa experiência sucessiva, num jogo entre "communitas" e "estrutura" revela-se momentos de homogeneidade, diferenciação, igualdade e desigualdade. Num espaço em que se experimenta  "ausência de status", uma espécie de "limbo" da vida social. Na relação entre pessoas, grupos, categorias, segundo Turner, coexistem "encargos" que na experiência da vida, a estrutura, sinônimo do Estado, e a communitas, que refere-se as transições, configuram as formas de liminaridade de um rito, a exemplo o de investidura.
No ápice da hierarquia político-legal estruturada, temos a "comunidade total", uma unidade não-estruturada orientada pelo "poder místico" enquanto "fonte ritual" força "política e militar" X o que é "ritualmente potente", o ponto a se pensar é o poder ou poderes dos fracos, sob os quais, fraqueza e passividade representam transações diacrônicas.

Posição social, "estrutura", entende-se como a "sincrônia de certas pessoas, grupos e categorias sociais nos sistemas políticos, legais e econômicos" onde os poderes "liminares", ou seja, "inferiores", identificados como os poderes rituais dos fracos, numa objetivação de uma "função profilática", preventivamente de autocontrole e autodomínio entre estágios pré-liminares e pós-liminares. Exemplos de "ausência de sexualidade" submissão e "silêncio" onde a autoridade é concentrada na "comunidade total" e "esta comunidade depositária da gama completa dos valores da cultura, normas, atitudes, sentimento e relações." (p.127)
Revelação - Fala - poder - sabedoria: Epifânia.

O conhecimento=sabedoria do grupo, gera um novo "status" a partir de uma forma impressa pelo social e sua "estrutura de posições" após a indiferenciação da liminaridade.

"Uma pessoa incumbida de um alto cargo fica especialmente tentada a usar a autoridade de que foi revestida pela sociedade para satisfazer desejos particulares e exclusivos. Mas deveria encarar seus privilégios como dádivas da comunidade inteira, que em ultima analise tem um direito supremo sobre todas as suas ações. A estrutura e os altos cargos promovidos pela estrutura são assim considerados como meios para o bem estar público, e não como recursos de engrandecimento pessoal. O chefe não deve "conservar a chefia só para si" (P.128)

"A função purificadora exercida pela liminaridade não está confinada a esse tipo de iniciação, mas forma um comportamento de muitos outros tipos em várias culturas" (p.129)

Num exercício de amadurecimento e autocrítica da disciplina, o pensamento social da Escola de Manchester, reitera a ideia de que o ritual vivifica a estrutura. Como em Shalins em que o estrutural é conjuntural, de maneira performativa e prescritiva, e a mudança social é estabelecida e realizada num contexto ritual, e a mudança da estrutura tem na cultura um ente social orientados da ação e a mudança e interpretada pelo símbolo em evidencia na ação, onde se opera o conceito de "eficácia simbólica".

terça-feira, 10 de setembro de 2013

LAUDA XV


Enquanto o Blog não pode ser devidamente atualizado deixo-vos com este endereço onde se encontra o texto:Notas sobre um texto fundamental: A Bahia crítica de Osmundo Pinho, publicado no Café com Sociologia.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

LAUDA XIV

Da instauração do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais[1]

 Há por aí um projeto de revolução. Alguns planejam, outros descobrem novas bombas, novas armas e saídas. A educação? Tudo começa e termina na educação. A educação tem um fim em si mesma. No entanto ela serve as artimanhas do capitalismo: reproduz sua cultura, coloniza as consciências, educa, enfim. O Colegiado de Ciências Sociais reunido em atenção dos afazeres para a confecção do Projeto Político e Pedagógico do Curso de Licenciatura, observa questões sobre o trabalho realizado pela comissão capitaneada pela Profª Doutora em Sociologia Mª Salete Nery, com o apoio de Bruno Durães e a presença marcante e contundente de Luís Flávio Reis Godinho, Doutor em Sociologia.

O projeto foi apresentado, a arquitetura foi apresentada, ainda com suas arestas e fissuras. As possibilidades de produção de conhecimento para o desenvolvimento do ensino aprendizagem das ciências sociais no ensino médio são caminhos para popularizar o conhecimento cientifico. Está na Lei, foi o que disseram os legisladores. Resta-nos opera-la e assim avançarmos sobre o mundo do trabalho, juntos, em marcha. As carteiras secundaristas aguardam, os jovens estão sedentos, ansiosos pela sociedade e suas formas de conhecer.

O mundo moderno e sua sociologia do cotidiano nos diz que o trabalho, a família e o lazer compõe os dias, no entanto as formas de perceber se complexificam e o real se torna impenetrável. A alienação orienta as interpretações, a ideologia presentifica consciências reificadas, a mercadoria faz de tudo fantasmagoria. Um tempo em que precisamos de lentes e telas para ler o mundo de imagens cada vez mais iconoclásticas e herméticas. O solipsisimo é o fundamento da reflexividade, é a marca cabal da sociedade; o individualismo e o fetiche predominam sobre as escolhas e comportamentos.

Por novos alunos e professores, por novas vagas para o colegiado, mais cientistas sociais atuantes e transformadores de sua realidade, por uma multidão de agentes críticos em contato cada vez mais cedo de nossa juventude e que os princípios que regem a sociedade em que se vive e suas complexas relações, sejam conhecidas.

Pode ser que o conhecimento da sociologia não signifique controle ou poder sobre a vida social, ainda que o maior conhecimento sobre as estruturas sociais e seus mecanismos de funcionamento não nos garantam uma chance de vencer as ululantes obviedades que nos cercam, destarte nos permitem estabelecer uma relação dialética e dialógica com os problemas sociológico e questões sociais de nosso tempo.



[1] Representação estudantil na Comissão de Implantação da Licenciatura. Centro Acadêmico de Ciências Sociais – Gestão a inclusão do outro 2012-2013.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

LAUDA XIII José Carlos Mariátegui e Fiodor Dostoievski : O Pensamento Social Latino Americano e a Literatura Russa.

Aspectos da Literatura russa à luz de José Carlos Mariátegui[1]: Sobre a questão do método no caso Dostoievski.[2]

“Zweig estuda Dostoievski abstraindo deste substractum histórico, deste sedimento social de sua arte” J.C.M.


I.
A arte russa concebe a sociedade no homem, diluído, massificado, burocraticamente organizado em classes, partidos, essa sociedade multipartida se reveste de um ideal de consciência coletiva em direção à transformação social, ao clímax da práxis revolucionária.

“Enquanto o romance ocidental, até em sua fase romântica descreve uma burguesia inquieta, porém normal, medíocre, às vezes, mas estável sempre, que assenta com confiança e sem desgosto seus pés na terra, e em que o atormentado não é regra senão a exceção, o romance russo, de estirpe dostoieviskiana, nos descreve invariavelmente uma burguesia lunática, desequilibrada, sentimental, em cuja consciência trabalha um complexo e na que o empresário alegre, contento de si mesmo, é um caso extraordinário, contraditado e renegado por uma descendência neurótica.” (MARIÁTEGUI, 2012, p.226)

Os eventos de 1917 revelaram ao mundo uma nova forma social ainda com suas inerentes contradições de uma experiência dialética de sociedade, a virada da revolução foi pungente desde sua pré-fabricação dos conteúdos de sentido das obras de arte, quanto à relação que o Estado estabelece com os intelectuais.

“As tentativas baratas, estreitas, de interpretação do bolchevismo, que uma crítica diletantesca e apriorística produziu no Ocidente nos primeiros anos da Revolução, e cujos ecos duraram até muito pouco tempo atrás, se entretinham com curiosa uniformidade em explicar este fenômeno como se fosse a culminação do movimento espiritualista representado por Dostoievski.” (MARIÁTEGUI; 2012.p.223)

Nos moldes de uma ação intelectual subversiva e predominantemente fundada no princípio da crítica dialética, está análise de Dostoievski, com o apoio de Mariátegui nos levará ao esforço de apontar princípios e práticas teóricas e metodológicas da tradição marxista no tratamento de relações sociais, no nosso caso em especial no campo da cultura.

O misticismo, a neurose e a exasperada busca do infinito e do absoluto, que encontram sua mais forte e patética expressão artística na obra de Dostoievski, eram admirados como fatores morais da revolução, que deveria a estes fatores seu tom apocalíptico e extremista.” (MARIÁTEGUI; 2012, p. 223)

Os desdobramentos da teoria marxista na América Latina, que ganham corpo com José Carlos Mariátegui tem uma série de aproximações e distanciamentos com a matriz de pensamento europeia. Nesse sentido, é possível perceber traços marcantes do pensamento social de origem contida nos escritos de  Antônio Gramsci e Leon Trotsky[3], entretanto ficam claras as suas distinções acerca do aproveitamento dos instrumentais teórico-crítico e suas orientações metodológicas em operação no contexto sul americano.

“Dostoievski traduziu em sua obra a crise da Intelligentsia russa como Lenin e sua equipe marxista se encarregaram de resolver e superar. Os bolcheviques opunham um realismo ativo e prático ao misticismo espiritualista e inconclusivo da Intelligentsia dostoieviskiana, uma vontade realizadora e operante a sua hesitação niilista e anárquica, uma ação concreta e enérgica a seu abstratismo divagador, um método cientifico e experimental a sua metafísica sentimental. (...) Reconhece-se um romantismo de fundo mais ou menos rousseaniano nos dezembristas, nos narodbiks, nos nilistas, nos social revolucionários.(...) uma revolução democrático burguesa que substituísse  a autocracia tsarista por um regime capitalista de tipo ocidental a conduziu a um utopismo desorbitado, em que o mais extremista e dissolvente individualismo se associava ao messianismo racial, hostil a Europa, dos orientalistas”(MARIÁTEGUI, 2012, p.224)

Essa passagem acima escrita pelo peruano deixa claro a sua linha de analise e predominante mente o caminho da sua investigação, um debate sobre intelectuais e elite que em algum momento do texto parte de Ortega y Gasset e culmina com uma provável aparência de um debate no estilo feito por Karl  Mannheim sobre a questão da Intelligentsia[4].

II.

Sobre os interesses de Mariátegui no campo da literatura russa, já que este seguiu pela tradição marxista no campo da cultura, com o viés da crítica literária discutindo e investigando vários autores e pensando sobre a sociedade russa no ambiente gerado pela revolução de 1917, perpassando os elementos sobre o realismo, e encontrando em alguma medida um romantismo em Dostoievski, autor este, que é o presente objeto de estudo, no desenvolvimento de nosso caso, com a novela Memórias do Subsolo.

“De fato, o conhecimento de Mariátegui sobre as letras russas era amplo. Ele havia lido ou estava amplamente familiarizado com obras de Dostoievski, Tolstoi, Gogol, Gorki, Maiacoviski, Blok, Artsibahev, Andreiev, Hippus, Ehrenburg, Merezhkovski, Serge, Kuprin, Ivanov, Essenin, Turgueniev, Pilniak, Zamiatin, Serafimovich, Babel, Tikhonov, Fedin, Lunts, Pasternak, Leonov, Briussov, Remisov, Biely, Sologu Glad Kov, entre outros.”(PÉRICAS, 2012; p.30)

A introdução ao pensamento social latino americano, em sua linguagem marxista, nos faz perceber uma adoção de técnicas e estratégias desdobradas de formas de pensamento gestados no centro europeu o que por sua vez influencia nas formas de abordar os objetos postos em questão pelo campo intelectual. Na dimensão que dialoga com a literatura, em especial a crítica literária e os temas cruciais de uma investigação engajada com a fusão entre cultura e revolução política na engenharia da produção de uma crítica marxista. E quando tratando em literatura, em regime de desconstrução do “realismo proletário”, sobre o qual Mariátegui apontava,segundo Luiz Bernardo Pericás

“Sua admiração confessa pelo realismo proletário, fazia com que exaltasse vários escritores que estavam longe de ser comparados aos clássicos russos, como Dostoievski e Tolstoi, dois romancistas que, por sinal, também respeitava.” (PÉRICÁS, 2012; p.31)

A poesia de Maiacoviski[5], a contística de Anton Tchékhov [6], a prosa de Dostoievski[7], no nosso caso, sua novela Notas do Subsolo; o romance de Boris Pasternak[8], Doutor Jivago são elementos discutidos no panorama histórico e político apresentado por José Carlos Mariategui em sua coleção de 50 de ensaios sobre a Revolução Russa: sua história, sua política e sua literatura, recentemente organizadas pela editora Expressão Popular.

A literatura desta época, ou melhor, desta origem – Dostoieviski, Andreiev, Sologub –, reflete, como já apontei certa vez, a neurose de uma burguesia frustrada, que não conseguiu conquistar o poder”(MARIÁTEGUI, 2012, p.224)

Parte-se da premissa de que o método marxista fundado na noção de crítica dialética do sistema de classes da sociedade capitalista faz com que se fundamente a análise do pensamento social latino americano como instrumento de investigação do objeto literário, num regime de análise e fundamentação que permitem entrevê na obra do peruano, um ponto chave para responder questões sobre aspectos da cultura revolucionária. Bem como a análise levando em conta a questão racial na Rússia entre os “eslavófilos” e os ocidentais. “A burguesia viu desertar seus filhos de sua empresa política, para entregar-se à preparação sentimental de uma revolução que não seria a sua.” (MARIÁTEGUI, 2012, p.225)

“Estas palavras colocam talvez o problema de Dostoievski clássico ou romântico. Problema que, em Dostoievski, admite resposta: Clássico ou romântico. Ou Romântico até o ponto de ser, ao mesmo tempo, clássico.” ”(MARIÁTEGUI, 2012, p.227)  

O presente debate aponta interseções entre a sociologia e a crítica literária, como aparece em Adorno[9] - e para além, coloca os objetos da cultura dentro de uma análise que regida pelo método da crítica materialista histórica dialética de Mariátegui possa dar conta de um quoeficiente literário e estético, ensaístico e filosófico.

III. (o texto a seguir [recuperado, que completada análise mais detidamente] pode ser encontrado em meu outro Blog: http://leitordemanuscritos.blogspot.com.br/2013/05/em-busca-da-analise-fundamental-o.html)

EM BUSCA DA ANÁLISE FUNDAMENTAL: (O LEITOR) ENTRE O MÉTODO CIENTÍFICO EM CIÊNCIAS SOCIAIS E O OBJETO DE ARTE SOB O OLHAR DA CRÍTICA LITERÁRIA.

Porém, a nova década trouxe o vento forte das mudanças  e o pensamento revolucionário foi tomado por uma reviravolta. (Dias, Andre. Dostoievski, um dissonante)

Recolho, aos poucos, breves notas de leitura, dispersos apontamentos críticos, análises preliminares de fichamentos, num esforço hercúleo, como quem realiza um de seus últimos trabalhos. E assim, posso constatar que a literatura é o meu subterrâneo. Começo a pensar na adoção da crítica literária como “O Grande Inquisidor”, expurgando e vivificando meus demônios.

E é claro que, entre outros tantos, Dostoievski tem aí um lugar notável. Primeiramente porque, mesmo sem saber ainda ler russo, introduzi-me na leitura dos grandes clássicos da literatura universal (geralmente ocidentais) pela obra Crime e Castigo, em tradução – o que não é o centro deste ensaio – mas que foi lida antes mesmo de adentrar o curso superior em Letras Vernáculas que começaria a cursar nos idos de 2005.

Ao lado de João Artur, que paripasso realizava a leitura de Anna Karenina, enquanto estudávamos na Biblioteca Municipal de Feira de Santana para posterior aprovação no vestibular da UEFS. Lembro-me de chegar ao fim daquelas centúrias de páginas, e sentir a permanência daquelas sensações psicológicas despertadas por Raskolnikov, Sônia e a velha. Continuo pensando naquele romance como um divisor de águas em minha vida de leitor.

Sete anos depois reencontro-me com o Dostoievski, numa leitura mais detida,  mas desta vez, no começo de 2012, em janeiro,  quando fiz uma primeira leitura, de Notas do subsolo(2009) na tradução original do russo – Zapsíki iz pódpolia – de Ruth Guimarães, numa edição barata, da Ediouro.
"As imagens, feitas entres os anos 1940 e 1950 e publicadas somente na Rússia, são consideradas uma contribuição importante para a iconografia de Dostoiévski. Nelas, Goeldi captura a essência dos romances “Humilhados e Ofendidos”, “Memórias do Subsolo”, “O Idiota” e “Recordações da Casa dos Mortos”, com ilustrações obscuras em preto e branco.
“Oswaldo Goeldi conseguiu expressar a relação peculiar entre suas ilustrações e o texto do autor russo. Muitos críticos já apontaram para o fato de que Dostoiévski capta a psique humana em seus momentos de crise, e é nisso que Goeldi nos proporciona com seus desenhos predominantes densos e soturnos. Seu mundo branco e preto se funde com a visão dostoievskiana do homem vivendo no submundo e no ápice da tortura”, explica a curadora Lani Goeldi."

Hoje em dia, dotado de alguns novos instrumentais que me possibilitam adentrar ou, ao menos, observar o universo criativo da obra de arte, percebo que caminhos tomam, possíveis leituras que se espalham por aí a fora. Entre algumas interpretações “possíveis”, sobre o romance russo,  me deparei com a de André Dias, que realiza uma leitura curiosamente sociológica e política, que encontrei enquanto pesquisava sobre a obra; é o olhar de André Dias que revela que “A atitude do escritor acabou por transforma-lo numa voz inconveniente, desagradável e dissonante como seu personagem que habitava o subsolo.”

O autor é apresentado como um “intelectual impertinente” levando em conta sua trajetória, “sobretudo quando olhada com o devido distanciamento histórico”, a obra  literária do romancista aponta para que “Dostoievski, com seu homem do subsolo, teve coragem de denunciar o perigo da aceitação irrestrita do determinismo racional, que inevitavelmente, conduziria os indivíduos a um vazio moral.”

É bem verdade que a novela foi pouco e, em geral, mal lida na ocasião do seu lançamento, mas não podemos desprezar o seu teor explosivo, quando lida na perspectiva de uma resposta as proposições do ativista radical. Alias, o próprio fato de a narrativa ter recebido pouca atenção na época de sua publicação é uma prova evidente de que aqueles eram tempos de polarização. Afinal de contas, em meio às agitações revolucionárias, qual o sentido de se dedicar atenção para uma narrativa cuja personagem principal era um homem sem brilho e medíocre? A primeira vista, poderia parecer que, com o lançamento de Memórias do Subsolo, o romancista fazia uma confissão de sua alienação e desinteresse pela causa revolucionaria. Pela causa revolucionaria radical ate poderia ser, mas pela situação periclitante de seu país, seguramente não. (DIAS; 2010 : 307)

Dostoievski (1821 – 1881) poderia ter vivido por todo o século XX, que mesmo assim estaria tão próximo de nós como está, de lá, do seu século XIX. Não apenas pelo trânsito histórico que possui sua obra mas, pela carga estética e criadora que arrasta ao longo dos séculos. O texto em questão é o romance, Notas do subsolo, datado originalmente de 1864, que apresenta a consciência do homem-subterrâneo um homem esmagado entre os descaminhos da sua sociedade e imensidão de sua consciência crítica da sociedade e da condição humana.

“Já o homem do subsolo se apresenta aos leitores como um indivíduo “doente, mau e desagradável”, como de fato podemos verificar ao longo da narrativa. A contradição marca toda a trajetória dessa personagem que nos faz caminhar pelas trilhas inseguras do seu mundo ora assustador, ora lamentável, ora lúcido, ora absolutamente desequilibrado.” (DIAS; 2010 : 307)
Uma leitura crítica permite entrevê em trechos da narrativa momentos como esse

“Como efeito, verificava sempre em mim a presença de um grande número de elementos diversos que se opunham violentamente. Sentia-me fervilharem em mim. Por assim dizer. Sabia que estavam presentes sempre e aspiravam a manifestar-se do lado de fora, mas eu não os deixava; não, não lhes permitia evadirem-se. Atormentavam-me até à vergonha, até as convulsões. Oh! como eu estava fatigado! Como estava saturado!” ( p.13)
Era esse o estado do nosso narrador logo no início do romance, percebe-se uma condição não só deplorável, mas em degradação ética e a impossibilidade moral de estabelecer alguma realização ideal na sua existência. Sua aparente alusão futura, denotando uma das possíveis inspirações de Kafka para a construção de Gregor Samsa , na confissão de que “Declaro-vos solenemente : um grande número de vezes já tentei tornar-me um inseto; mas não fui julgado digno disso.”(p.14)

A sua descrição do homem do século XIX denota claramente o sintoma que mais lhe acomete, a questão da moral... “Jamais consegui nada, nem mesmo me tornar malvado; não consegui ser belo, nem mau, nem canalha, nem herói, nem mesmo um inseto. E agora, termino a existência no meu cantinho, onde tento piedosamente me consolar, aliás sem sucesso, dizendo-me que um homem inteligente não consegue nunca se tornar alguma coisa, e que só o imbecil triunfa.Sim, meus senhores, o homem do século XIX tem o dever de ser essencialmente destituído de caráter; está moralmente obrigado a isso. O homem que possui caráter, o homem de ação, é um ser essencialmente medíocre.Tal é a convicção de meus quarenta anos de existência”(p.13)

Numa crítica ao sentimentalismo do idealismo francês de Rousseau e do Romantismo Alemão nos diz: apostava numa consciência, a partir da qual afirmava que “Uma consciência clarividente demais, asseguro-vos, senhores, é uma doença, uma doença muito real.” E assevera dois parágrafos a frente: “Entretanto – estou firmemente convencido - , a consciência , toda consciência é uma enfermidade.”

E essa dimensão de uma “consciência” produz a distinção entre o homem de ação e  os homens que pensam que são ainda distintos do homem simples, mas estúpido. Esse humanismo crítico e de uma esperança desesperada que rege a consciência do escritor e seu narrador numa espécie de “mistura abominável e gelada de desespero e esperança, é precisamente esse sepultamento voluntário, e essa existência de emparedado vivo, essa ausência, claramente percebida, mas sempre duvidosa, de toda solução é esse vínculo de desejos insatisfeitos e enfurnados, de decisões febris tomadas para a eternidade mas, imediatamente seguidas de remorso, é isso precisamente o que segrega essa volúpia estranha de que falava antes.”(p.21)Segundo Dias “o romancista utilizou seu discurso literário para se contrapor aos discursos políticos totalitários”.

O homem do subsolo que tanta aversão causava com suas ações, pode ser visto como o anti-herói. Sua persona biliosa e até certo ponto perversa em nada lembra a estatura de um herói. Ele era cruel consigo mesmo e com aqueles que atravessassem seu caminho, era manipulador e torturava cruelmente aqueles com quem se relacionava. (DIAS; 2010 : 308)

O escritor, deliberadamente, escolheu se colocar em rota de colisão com o pensamento da intelligentsia radical da geração de sessenta. E importante que se diga que adotar tal posição, no caso do romancista, não tinha nenhuma relação com a ideia de um possível apoio ao regime czarista. Mais do que se posicionar ao lado de um grupo ou de outro, o escritor soube como poucos discernir o espírito de seu tempo. Só que essa capacidade de traduzir as contradições, quase sempre, vem acompanhada de um custo bastante elevado. Imaginemos a situação do intelectual que rejeitava o atraso da sociedade russa, mas via também a adesão indiscriminada a uma mentalidade ocidentalizante e capitalista com muitas reservas. Seguramente não era a mais confortável. Mais sério ainda, em um momento em que boa parte da intelligentsia se deixava seduzir pelo apelo da razão revolucionária armamentista não cerrar fileiras com o movimento seria um pecado imperdoável. (DIAS; 2010 : 306)
O autor em suas próprias palavras nos diz sua posição sobre esse “pecado imperdoável”, diante deste “crime” Dostoievski pergunta ao leitor “Mas não vos parece, senhores, que eu me arrependo e que vos peço perdão de não sei que crime? Estou certo senhores, de que ides imaginar isso. Mas aliás, digo-vos que, quer vós o imagineis ou não, isso me é indiferente.”





[1] MARIATEÉGUI, José Carlos. Revolução Russa: História, Política e Literatura. Org., tradução e prefácio: Luiz Bernardo Pericás. 1ª edição – Ed. Expressão Popular. São Paulo. 2012.
[2] Por Camillo César Alvarenga , estudante da disciplina de Marxismo latino americano.
[3] TROTSKI, Leon. Literatura e Revolução. Tradução Moniz Bandeira. Zahar – Rio de Janeiro.1980.
[4] Ver Karl Manhein Sociologia da cultura edições Perspectiva.
[5] MAIACOVSKY, Vladmir. Antologia Poética. Estudo Biografico e tradução de Emilio C. Guerra.  Editora Max Limonad.São Paulo.2ª edição. 1983.
[6] CHEKHOV, Anton Pavlovich. A dama e outras histórias – Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.
[7] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Notas do subsolo/Fiódor Dostoiévski; tradução de Ruth Guimarães. – Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009.
[8] PASTERNAK, Boris. Doutor Jivago. Record. S.d.
[9] Apontado por Jaime Ginsbourg

quinta-feira, 25 de abril de 2013

XII


Ao passo que desenvolvo uma leitura crítica e radical ao pensamento marxiano para extirpar do pensamento social toda ortodoxia das formas de pensamento engessadas e de pouco  poder discursivo sobre o conteúdo de natureza e forma marxista, opero assim a prova dos 9 de Karl Marx. Para abrir caminho ao pensamento mais contemporâneo em regime de análise e crítica. Enquanto isso, segue o link para um texto meu sobre Norbert Elias e a Teoria Simbólica publicado recentemente no Blog Café com Sociologia, que com a capitania de Cristiano Bodart e Roniel Sampaio, estes que também organizam a Revista Acadêmica Café com Sociologia, uma bela inciativa para o pensamento sociológico no Brasil.

                                                                 


                                            ( *22. 6. 1897 - +1. 8. 1990 )

sábado, 13 de abril de 2013

LAUDA X


Pierre Bourdieu: Por uma macrossociologia entre campos e habitus, estruturas e práticas no contemporâneo.



“A máquina de costura só foi inventada quando as pessoas deixaram de imitar os gestos da costureira: sem dúvida, a sociologia tiraria a melhor lição de uma justa representação da epistemologia das ciências da natureza se se empenhasse em proceder à verificação permanente de que está construindo verdadeiramente máquinas de costura, em vez de transpor, de forma irrelevante, os gestos espontâneos da prática ingênua” (BOURDIEU, P.,CHAMBOREDON, J-C., PASSERON, J-C. Ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia.4ª Ed.. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004, p.36)
Introdução

No exercício de construção de uma literatura científica, com bases em vista da formação de um novo paradigma teórico, metodológico e epistemológico para as Ciências Sociais, a obra do francês Pierre Bourdieu (1930 – 2002) é um rico e ilustrativo exemplo da possibilidade de uma concatenação e orquestração de postulados clássicos, para fins de estabelecer premissas que possam corroborar na busca por esquemas de interpretação da realidade social e do lugar do sociólogo na atualidade.

Assim, no percurso povoado por obras como Profissão de Sociólogo: Preliminares epistemológicas[4] (1999), O senso prático (2009), A economia das trocas simbólicas entre outras, se espraia, de tal maneira, num vasto horizonte intelectual uma perspectiva crítica de síntese do pensamento clássicos em sociologia, desdobrando-se numa abordagem construtivista estrutural – macrossociológica – dos fenômenos sociais e suas relações com os indivíduos e de forma que o mundo social que é visto, entendido e interpretado à luz de um complexo de conceitos e categorias tais como habitus, campos, práticas, estruturas estruturantes, estruturas estruturadas, o que se revela enquanto estratégia teórica encarnada em um aporte metodológico rígido que possibilita por sua vez a emergência de um protótipo epistemológico relacional onde se funda traços da ciência social moderna.

Logo, apresentados a esse prisma, breve e rarefeito, do pensamento do sociólogo francês em questão, possamos agora nos aprofundar numa busca por uma visão analítica e uma compreensão ainda que recortada de pontos cruciais da estrutura de pensamento deste cientista social de nosso tempo.

I – A práxis da ruptura, o ofício e a vigilância científica: A epistemologia como balança entre a teoria, método e objeto de pesquisa Ciência Sociais.

Em Bourdieu, o anseio pela “modelagem” de novas formas de construção dos pontos de vista críticos acerca do real são quase obsessão, desde a Miséria do Mundo com suas entrevistas e engenho de dados quantitativos aliados a depoimentos onde se ouve o eco da subjetividade, aparece uma nova proposta, de certa forma, onde alinham-se a técnica do pesquisador ao olhar mais apurado desenvolvido sobre seu objeto, ou seja, uma espécie de “práxis cientifica” se origina no seio do pensamento social; o que por sua vez requer do sujeito pesquisador uma consciência do seu trabalho no qual uma “distinção” entre as formas de conhecimento se elaboram, a partir da qual se opera uma insidiosa relação entre “comunidade científica” que legitima, avalia e coordena os valores da “atividade científica” o que apresenta no contexto da sociologia  do conhecimento como “força” que age no campo afim de conter e administrar as rupturas causadas por revoluções científicas as quais transformam os movimentos internos da prática teórica  bem como seus paradigmas e os pontos de partida para a construção de hipóteses e como desenvolvê-las em face as contradições que se evidenciam na práxis da pesquisa empírica – rompimento com o senso comum, vigilância científica – em decorrência do complexo crítico entre metodologias e orientações epistemológicas que norteiam o fazer sociológico e suas nuances.

II. A lógica sociológica: a ossatura e o holograma da teoria social bourdiana.

A sociologia é o plano cartesiano onde se ligam ponto a ponto os pressupostos da teoria social e das ciências humanas como um todo abrangente e (ina)harmônico  no qual se agregam possibilidades de apontar caminhos para o estudo da vida em sociedade.

Nesse sentido, o autor em questão, ao abordar um elaborado arquipélago de conceitos, nos lega um conjunto de chaves interdependentes e suas implicações. O que diz respeito às questões de aplicação a uma realidade específica, nos atentaremos para o campo das Artes. Sobre o qual Bourdieu explicita e delineia contornos através dos quais categorias como estrutura, habitus[11] – “arte de inventar” que “confere as práticas sua independência relativa em relação às determinações exteriores do presente imediato” – e práticas[12] – “atividade real como tal” – ganhar forma de maneira que a impressão refletida da teoria permite um debate sobre alcance e validade do projeto teórico de Bourdieu.

É mister partirmos do esclarecimento de que  para o artista das estruturas servem como instâncias de consagração sejam as academias, os museus, as universidades, no livro Amor pela arte, Bourdieu explana sobre o fazer artístico, as relações entre os espaços de exposição da prática artísitca e seu encontro com o público. A imprensa, as editoras, toda a estrutura que aloca e mobiliza as forças em torno da obra de arte funcionam como agentes que acionam e dão margem de crescimento do capital cultural, social e simbólico da obra de arte a ser produzida.

Já na obra o Senso Prático...

“Nada é mais enganador do que a ilusão retrospectiva que revela o conjunto dos traços de uma vida, tais como as obras de um artista ou os acontecimentos de uma biografia, como a realização de uma essência que lhes preexistiria: da mesma maneira que a verdade de um estilo artístico não está inscrita em germe em uma inspiração original, mas se define e se redefine continuamente na dialética da intenção de objetivação e da intenção já objetivada, da mesma maneira é pela confrontação entre as questões que não existem senão pelo e para um espírito armado de um tipo determinado de esquemas e de soluções obtidas pela aplicação desses mesmos esquemas, mas capazes de transformá-los, que se constitui essa unidade de sentido que, retrospectivamente, pode parecer ter precedido os atos e as obras anunciadoras da significação final, transformando retroativamente os diferentes momentos da série temporal em simples esboços preparatórios” (BOURDIEU, 2009, p.91)

O artista por sua vez, que é indivíduo, mas que é imagem e representação de um grupo, é ele quem incorpora uma coletividade de maneira que corporifica gostos e assume posturas, aponta estéticas e identifica tendências para engendrar um olhar e uma prática social consubstanciada num habitus – ainda que considerando as “dificuldades propriamente científicas que faz surgir” – que se forma na condição em que se estabelece no “jogo” do sujeito ou do seu grupo diante das classes sociais – que são configurados pela lógica da dominação entre os grupos dominantes e dominados – do capital econômico, político, sendo que a identificação se apresenta de acordo ao contexto das relações de poder e suas condicionantes o que aproxima a teoria do real.

III. “A Revolução não vai passar na TV”: Os limites da transformação e a reprodução social.

O arguto edifício intelectual, erigido pelos argumentos de Bourdieu, no decorrer da sua obra, nos possibilitam avistar um avatar através do qual a teoria social é um corpo de estruturas de pensamento e percepção da realidade arquitetadas, de modo tal, que o arranjo entre as forças que agem no interior da dinâmica social aparecem cimentadas sob o jugo da relação entre ordem – consubstanciada na força do habitus como nos diz, o autor em Senso Prático, que
 “nas formações sociais em que a reprodução das relações de dominação (e do capital econômico ou cultural) não é garantida pelos mecanismos objetivos, o incessante trabalho necessário para manter as relações de dependência pessoal estaria de antemão destinado ao fracasso caso ele não pudesse contar com a constância do habitus, isto é, o organismo que como grupo dele se apropriou e que ele é de antemão atribuído às exigências do grupo, funciona como a materialização da matéria coletiva, reproduzindo nos sucessores a aquisição dos predecessores” (BOURDIEU, 2009, p.90)
Além das normas e o conflito entre dominantes e dominados adornada pelas interações “sociais”, “simbólicas”, “econômicas”, “políticas” e “culturais” que tem por princípio a relação com o capital em suas mais variadas formas.

Tomando por base as multifacetas do sistema social capitalista, a teoria do francês, vêm com o intuito de trazer à tona um método que possa abarcar epistemológica e a sociologicamente as mais variadas gradações de manifestação das formas de dominação ou premiação que o processo coletivo oferece.
Por sua vez, nessa tarefa imposta a um projeto intelectual de tamanha envergadura nós conjecturamos entre outros entre outros desdobramentos, a limitação de transformação social, já que os movimentos societais, comandam as práticas sociais. O que nos revela a predominância da estrutura sobre o sujeito, do método e teoria em relação dialética com o objeto e da relação dialógica entre empiria e epistemologia em sociologia; assinalando de forma categórica o soerguimento da reprodução social como força de conservação da substância social.

IV – Considerações preliminares: Uma teoria, sua crítica e o não fim da análise.

Tendo partido em busca de uma fonte de recursos que salientassem os destaques no arcabouço teórico, metodológico epistemológico e indicassem sinais de cognição da sociologia e da sociologia do conhecimento de Bourdieu, encontrou-se pelo caminho uma ideia contundente de distanciamento no que tange ao ofício do sociólogo para que seja possível a produção de um método a partir do real e com bases empíricas sólidas, além de estar aliada a uma constante vigilância contra o espontaneismo de sociologias efêmeras.
Trata-se de escapar ao realismo da estrutura ao qual o objetivismo, momento necessário da ruptura com a experiência primeira e da construção das relações objetivas, conduz necessariamente quando hipostasia essas relações ao tratá-las como realidades já constituídas fora da história do individuo e do grupo, sem recair, no entanto, no subjetivismo, totalmente incapaz de dar conta da necessidade do mundo social: para isso, é preciso retornar a prática, lugar da dialética do opus operatum e do modus operandi, dos produtos objetivados e dos produtos incorporados da prática histórica, das estruturas e dos habitus. (BOURDIEU, 2009, p.86-87)
Deparamos-nos também com a tradição francesa bem representada nos conceitos de estrutura e seu envolvimento direto com a noção de construtivismo em face a objetividade nas ciências sociais, operando assim “um questionamento radical do modo de pensamento objetivista”, logo

“A teoria da prática como a prática evoca, contra o materialismo positivista, que os objetos são construídos, e não passivamente registrados e, contra o idealismo intelectualista, que o princípio dessa construção é o sistema das disposições estruturadas e estruturantes que se constitui na prática e que é sempre orientado para funções práticas.” (BOURDIEU, 2009, p.86)

Aparece também o lugar da praxeologia. Além de que a leitura de uma miscelânea de textos aponta para a coleção de abordagens dos conceitos e suas complexas aplicações e explicações. Pois que em vários aspectos os conceitos se adequam aos objetos das teorias e as relações que estas estabelecem com seus objetos frente a premissas metodológicas e pressupostos epistemológicos.

Enfim, preliminarmente surge do mosaico de vertentes do ambiente intelectual resultante da leitura crítica e analítica de parte da vasta obra deste autor, que a essência das suas arregimentações esta repousada sobre a lógica do “jogo” pela dominação e a função social que possui, ainda, uma  noção coletiva de hierarquia, em suas mais variadas formas e fontes de poder, que se apresentam no contexto da modernidade.





[11] “sistemas de disposições duráveis e transponíveis, estruturas estruturadas e predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como princípios geradores de práticas e de representações que podem ser objetivamente adaptadas ao seu objetivo sem supor a intenção consciente de fins e o domínio expresso das operações necessárias para alcança-los, objetivamente “ reguladas” e “regulares” sem nada ser o produto da obediência a algumas regras e, sendo tudo isso, coletivamente orquestradas sem ser o produto da ação organizadora de um maestro. (BOURDIEU, 2009, p.86)

[12] “Só se pode explicá-las, portanto, com a condição de relacionar as condições sociais nas quais se constituiu o habitus  que as engendrou e as condições sociais nas quais ele é posto em \ação, ou seja, com a condição de operar pelo trabalho cientifico a relação desses dois estados do mundo social que o habitus efetua, ao ocultá-lo na e pela prática” (BOURDIEU, 2009, p.93)