quinta-feira, 4 de julho de 2013

LAUDA XIII José Carlos Mariátegui e Fiodor Dostoievski : O Pensamento Social Latino Americano e a Literatura Russa.

Aspectos da Literatura russa à luz de José Carlos Mariátegui[1]: Sobre a questão do método no caso Dostoievski.[2]

“Zweig estuda Dostoievski abstraindo deste substractum histórico, deste sedimento social de sua arte” J.C.M.


I.
A arte russa concebe a sociedade no homem, diluído, massificado, burocraticamente organizado em classes, partidos, essa sociedade multipartida se reveste de um ideal de consciência coletiva em direção à transformação social, ao clímax da práxis revolucionária.

“Enquanto o romance ocidental, até em sua fase romântica descreve uma burguesia inquieta, porém normal, medíocre, às vezes, mas estável sempre, que assenta com confiança e sem desgosto seus pés na terra, e em que o atormentado não é regra senão a exceção, o romance russo, de estirpe dostoieviskiana, nos descreve invariavelmente uma burguesia lunática, desequilibrada, sentimental, em cuja consciência trabalha um complexo e na que o empresário alegre, contento de si mesmo, é um caso extraordinário, contraditado e renegado por uma descendência neurótica.” (MARIÁTEGUI, 2012, p.226)

Os eventos de 1917 revelaram ao mundo uma nova forma social ainda com suas inerentes contradições de uma experiência dialética de sociedade, a virada da revolução foi pungente desde sua pré-fabricação dos conteúdos de sentido das obras de arte, quanto à relação que o Estado estabelece com os intelectuais.

“As tentativas baratas, estreitas, de interpretação do bolchevismo, que uma crítica diletantesca e apriorística produziu no Ocidente nos primeiros anos da Revolução, e cujos ecos duraram até muito pouco tempo atrás, se entretinham com curiosa uniformidade em explicar este fenômeno como se fosse a culminação do movimento espiritualista representado por Dostoievski.” (MARIÁTEGUI; 2012.p.223)

Nos moldes de uma ação intelectual subversiva e predominantemente fundada no princípio da crítica dialética, está análise de Dostoievski, com o apoio de Mariátegui nos levará ao esforço de apontar princípios e práticas teóricas e metodológicas da tradição marxista no tratamento de relações sociais, no nosso caso em especial no campo da cultura.

O misticismo, a neurose e a exasperada busca do infinito e do absoluto, que encontram sua mais forte e patética expressão artística na obra de Dostoievski, eram admirados como fatores morais da revolução, que deveria a estes fatores seu tom apocalíptico e extremista.” (MARIÁTEGUI; 2012, p. 223)

Os desdobramentos da teoria marxista na América Latina, que ganham corpo com José Carlos Mariátegui tem uma série de aproximações e distanciamentos com a matriz de pensamento europeia. Nesse sentido, é possível perceber traços marcantes do pensamento social de origem contida nos escritos de  Antônio Gramsci e Leon Trotsky[3], entretanto ficam claras as suas distinções acerca do aproveitamento dos instrumentais teórico-crítico e suas orientações metodológicas em operação no contexto sul americano.

“Dostoievski traduziu em sua obra a crise da Intelligentsia russa como Lenin e sua equipe marxista se encarregaram de resolver e superar. Os bolcheviques opunham um realismo ativo e prático ao misticismo espiritualista e inconclusivo da Intelligentsia dostoieviskiana, uma vontade realizadora e operante a sua hesitação niilista e anárquica, uma ação concreta e enérgica a seu abstratismo divagador, um método cientifico e experimental a sua metafísica sentimental. (...) Reconhece-se um romantismo de fundo mais ou menos rousseaniano nos dezembristas, nos narodbiks, nos nilistas, nos social revolucionários.(...) uma revolução democrático burguesa que substituísse  a autocracia tsarista por um regime capitalista de tipo ocidental a conduziu a um utopismo desorbitado, em que o mais extremista e dissolvente individualismo se associava ao messianismo racial, hostil a Europa, dos orientalistas”(MARIÁTEGUI, 2012, p.224)

Essa passagem acima escrita pelo peruano deixa claro a sua linha de analise e predominante mente o caminho da sua investigação, um debate sobre intelectuais e elite que em algum momento do texto parte de Ortega y Gasset e culmina com uma provável aparência de um debate no estilo feito por Karl  Mannheim sobre a questão da Intelligentsia[4].

II.

Sobre os interesses de Mariátegui no campo da literatura russa, já que este seguiu pela tradição marxista no campo da cultura, com o viés da crítica literária discutindo e investigando vários autores e pensando sobre a sociedade russa no ambiente gerado pela revolução de 1917, perpassando os elementos sobre o realismo, e encontrando em alguma medida um romantismo em Dostoievski, autor este, que é o presente objeto de estudo, no desenvolvimento de nosso caso, com a novela Memórias do Subsolo.

“De fato, o conhecimento de Mariátegui sobre as letras russas era amplo. Ele havia lido ou estava amplamente familiarizado com obras de Dostoievski, Tolstoi, Gogol, Gorki, Maiacoviski, Blok, Artsibahev, Andreiev, Hippus, Ehrenburg, Merezhkovski, Serge, Kuprin, Ivanov, Essenin, Turgueniev, Pilniak, Zamiatin, Serafimovich, Babel, Tikhonov, Fedin, Lunts, Pasternak, Leonov, Briussov, Remisov, Biely, Sologu Glad Kov, entre outros.”(PÉRICAS, 2012; p.30)

A introdução ao pensamento social latino americano, em sua linguagem marxista, nos faz perceber uma adoção de técnicas e estratégias desdobradas de formas de pensamento gestados no centro europeu o que por sua vez influencia nas formas de abordar os objetos postos em questão pelo campo intelectual. Na dimensão que dialoga com a literatura, em especial a crítica literária e os temas cruciais de uma investigação engajada com a fusão entre cultura e revolução política na engenharia da produção de uma crítica marxista. E quando tratando em literatura, em regime de desconstrução do “realismo proletário”, sobre o qual Mariátegui apontava,segundo Luiz Bernardo Pericás

“Sua admiração confessa pelo realismo proletário, fazia com que exaltasse vários escritores que estavam longe de ser comparados aos clássicos russos, como Dostoievski e Tolstoi, dois romancistas que, por sinal, também respeitava.” (PÉRICÁS, 2012; p.31)

A poesia de Maiacoviski[5], a contística de Anton Tchékhov [6], a prosa de Dostoievski[7], no nosso caso, sua novela Notas do Subsolo; o romance de Boris Pasternak[8], Doutor Jivago são elementos discutidos no panorama histórico e político apresentado por José Carlos Mariategui em sua coleção de 50 de ensaios sobre a Revolução Russa: sua história, sua política e sua literatura, recentemente organizadas pela editora Expressão Popular.

A literatura desta época, ou melhor, desta origem – Dostoieviski, Andreiev, Sologub –, reflete, como já apontei certa vez, a neurose de uma burguesia frustrada, que não conseguiu conquistar o poder”(MARIÁTEGUI, 2012, p.224)

Parte-se da premissa de que o método marxista fundado na noção de crítica dialética do sistema de classes da sociedade capitalista faz com que se fundamente a análise do pensamento social latino americano como instrumento de investigação do objeto literário, num regime de análise e fundamentação que permitem entrevê na obra do peruano, um ponto chave para responder questões sobre aspectos da cultura revolucionária. Bem como a análise levando em conta a questão racial na Rússia entre os “eslavófilos” e os ocidentais. “A burguesia viu desertar seus filhos de sua empresa política, para entregar-se à preparação sentimental de uma revolução que não seria a sua.” (MARIÁTEGUI, 2012, p.225)

“Estas palavras colocam talvez o problema de Dostoievski clássico ou romântico. Problema que, em Dostoievski, admite resposta: Clássico ou romântico. Ou Romântico até o ponto de ser, ao mesmo tempo, clássico.” ”(MARIÁTEGUI, 2012, p.227)  

O presente debate aponta interseções entre a sociologia e a crítica literária, como aparece em Adorno[9] - e para além, coloca os objetos da cultura dentro de uma análise que regida pelo método da crítica materialista histórica dialética de Mariátegui possa dar conta de um quoeficiente literário e estético, ensaístico e filosófico.

III. (o texto a seguir [recuperado, que completada análise mais detidamente] pode ser encontrado em meu outro Blog: http://leitordemanuscritos.blogspot.com.br/2013/05/em-busca-da-analise-fundamental-o.html)

EM BUSCA DA ANÁLISE FUNDAMENTAL: (O LEITOR) ENTRE O MÉTODO CIENTÍFICO EM CIÊNCIAS SOCIAIS E O OBJETO DE ARTE SOB O OLHAR DA CRÍTICA LITERÁRIA.

Porém, a nova década trouxe o vento forte das mudanças  e o pensamento revolucionário foi tomado por uma reviravolta. (Dias, Andre. Dostoievski, um dissonante)

Recolho, aos poucos, breves notas de leitura, dispersos apontamentos críticos, análises preliminares de fichamentos, num esforço hercúleo, como quem realiza um de seus últimos trabalhos. E assim, posso constatar que a literatura é o meu subterrâneo. Começo a pensar na adoção da crítica literária como “O Grande Inquisidor”, expurgando e vivificando meus demônios.

E é claro que, entre outros tantos, Dostoievski tem aí um lugar notável. Primeiramente porque, mesmo sem saber ainda ler russo, introduzi-me na leitura dos grandes clássicos da literatura universal (geralmente ocidentais) pela obra Crime e Castigo, em tradução – o que não é o centro deste ensaio – mas que foi lida antes mesmo de adentrar o curso superior em Letras Vernáculas que começaria a cursar nos idos de 2005.

Ao lado de João Artur, que paripasso realizava a leitura de Anna Karenina, enquanto estudávamos na Biblioteca Municipal de Feira de Santana para posterior aprovação no vestibular da UEFS. Lembro-me de chegar ao fim daquelas centúrias de páginas, e sentir a permanência daquelas sensações psicológicas despertadas por Raskolnikov, Sônia e a velha. Continuo pensando naquele romance como um divisor de águas em minha vida de leitor.

Sete anos depois reencontro-me com o Dostoievski, numa leitura mais detida,  mas desta vez, no começo de 2012, em janeiro,  quando fiz uma primeira leitura, de Notas do subsolo(2009) na tradução original do russo – Zapsíki iz pódpolia – de Ruth Guimarães, numa edição barata, da Ediouro.
"As imagens, feitas entres os anos 1940 e 1950 e publicadas somente na Rússia, são consideradas uma contribuição importante para a iconografia de Dostoiévski. Nelas, Goeldi captura a essência dos romances “Humilhados e Ofendidos”, “Memórias do Subsolo”, “O Idiota” e “Recordações da Casa dos Mortos”, com ilustrações obscuras em preto e branco.
“Oswaldo Goeldi conseguiu expressar a relação peculiar entre suas ilustrações e o texto do autor russo. Muitos críticos já apontaram para o fato de que Dostoiévski capta a psique humana em seus momentos de crise, e é nisso que Goeldi nos proporciona com seus desenhos predominantes densos e soturnos. Seu mundo branco e preto se funde com a visão dostoievskiana do homem vivendo no submundo e no ápice da tortura”, explica a curadora Lani Goeldi."

Hoje em dia, dotado de alguns novos instrumentais que me possibilitam adentrar ou, ao menos, observar o universo criativo da obra de arte, percebo que caminhos tomam, possíveis leituras que se espalham por aí a fora. Entre algumas interpretações “possíveis”, sobre o romance russo,  me deparei com a de André Dias, que realiza uma leitura curiosamente sociológica e política, que encontrei enquanto pesquisava sobre a obra; é o olhar de André Dias que revela que “A atitude do escritor acabou por transforma-lo numa voz inconveniente, desagradável e dissonante como seu personagem que habitava o subsolo.”

O autor é apresentado como um “intelectual impertinente” levando em conta sua trajetória, “sobretudo quando olhada com o devido distanciamento histórico”, a obra  literária do romancista aponta para que “Dostoievski, com seu homem do subsolo, teve coragem de denunciar o perigo da aceitação irrestrita do determinismo racional, que inevitavelmente, conduziria os indivíduos a um vazio moral.”

É bem verdade que a novela foi pouco e, em geral, mal lida na ocasião do seu lançamento, mas não podemos desprezar o seu teor explosivo, quando lida na perspectiva de uma resposta as proposições do ativista radical. Alias, o próprio fato de a narrativa ter recebido pouca atenção na época de sua publicação é uma prova evidente de que aqueles eram tempos de polarização. Afinal de contas, em meio às agitações revolucionárias, qual o sentido de se dedicar atenção para uma narrativa cuja personagem principal era um homem sem brilho e medíocre? A primeira vista, poderia parecer que, com o lançamento de Memórias do Subsolo, o romancista fazia uma confissão de sua alienação e desinteresse pela causa revolucionaria. Pela causa revolucionaria radical ate poderia ser, mas pela situação periclitante de seu país, seguramente não. (DIAS; 2010 : 307)

Dostoievski (1821 – 1881) poderia ter vivido por todo o século XX, que mesmo assim estaria tão próximo de nós como está, de lá, do seu século XIX. Não apenas pelo trânsito histórico que possui sua obra mas, pela carga estética e criadora que arrasta ao longo dos séculos. O texto em questão é o romance, Notas do subsolo, datado originalmente de 1864, que apresenta a consciência do homem-subterrâneo um homem esmagado entre os descaminhos da sua sociedade e imensidão de sua consciência crítica da sociedade e da condição humana.

“Já o homem do subsolo se apresenta aos leitores como um indivíduo “doente, mau e desagradável”, como de fato podemos verificar ao longo da narrativa. A contradição marca toda a trajetória dessa personagem que nos faz caminhar pelas trilhas inseguras do seu mundo ora assustador, ora lamentável, ora lúcido, ora absolutamente desequilibrado.” (DIAS; 2010 : 307)
Uma leitura crítica permite entrevê em trechos da narrativa momentos como esse

“Como efeito, verificava sempre em mim a presença de um grande número de elementos diversos que se opunham violentamente. Sentia-me fervilharem em mim. Por assim dizer. Sabia que estavam presentes sempre e aspiravam a manifestar-se do lado de fora, mas eu não os deixava; não, não lhes permitia evadirem-se. Atormentavam-me até à vergonha, até as convulsões. Oh! como eu estava fatigado! Como estava saturado!” ( p.13)
Era esse o estado do nosso narrador logo no início do romance, percebe-se uma condição não só deplorável, mas em degradação ética e a impossibilidade moral de estabelecer alguma realização ideal na sua existência. Sua aparente alusão futura, denotando uma das possíveis inspirações de Kafka para a construção de Gregor Samsa , na confissão de que “Declaro-vos solenemente : um grande número de vezes já tentei tornar-me um inseto; mas não fui julgado digno disso.”(p.14)

A sua descrição do homem do século XIX denota claramente o sintoma que mais lhe acomete, a questão da moral... “Jamais consegui nada, nem mesmo me tornar malvado; não consegui ser belo, nem mau, nem canalha, nem herói, nem mesmo um inseto. E agora, termino a existência no meu cantinho, onde tento piedosamente me consolar, aliás sem sucesso, dizendo-me que um homem inteligente não consegue nunca se tornar alguma coisa, e que só o imbecil triunfa.Sim, meus senhores, o homem do século XIX tem o dever de ser essencialmente destituído de caráter; está moralmente obrigado a isso. O homem que possui caráter, o homem de ação, é um ser essencialmente medíocre.Tal é a convicção de meus quarenta anos de existência”(p.13)

Numa crítica ao sentimentalismo do idealismo francês de Rousseau e do Romantismo Alemão nos diz: apostava numa consciência, a partir da qual afirmava que “Uma consciência clarividente demais, asseguro-vos, senhores, é uma doença, uma doença muito real.” E assevera dois parágrafos a frente: “Entretanto – estou firmemente convencido - , a consciência , toda consciência é uma enfermidade.”

E essa dimensão de uma “consciência” produz a distinção entre o homem de ação e  os homens que pensam que são ainda distintos do homem simples, mas estúpido. Esse humanismo crítico e de uma esperança desesperada que rege a consciência do escritor e seu narrador numa espécie de “mistura abominável e gelada de desespero e esperança, é precisamente esse sepultamento voluntário, e essa existência de emparedado vivo, essa ausência, claramente percebida, mas sempre duvidosa, de toda solução é esse vínculo de desejos insatisfeitos e enfurnados, de decisões febris tomadas para a eternidade mas, imediatamente seguidas de remorso, é isso precisamente o que segrega essa volúpia estranha de que falava antes.”(p.21)Segundo Dias “o romancista utilizou seu discurso literário para se contrapor aos discursos políticos totalitários”.

O homem do subsolo que tanta aversão causava com suas ações, pode ser visto como o anti-herói. Sua persona biliosa e até certo ponto perversa em nada lembra a estatura de um herói. Ele era cruel consigo mesmo e com aqueles que atravessassem seu caminho, era manipulador e torturava cruelmente aqueles com quem se relacionava. (DIAS; 2010 : 308)

O escritor, deliberadamente, escolheu se colocar em rota de colisão com o pensamento da intelligentsia radical da geração de sessenta. E importante que se diga que adotar tal posição, no caso do romancista, não tinha nenhuma relação com a ideia de um possível apoio ao regime czarista. Mais do que se posicionar ao lado de um grupo ou de outro, o escritor soube como poucos discernir o espírito de seu tempo. Só que essa capacidade de traduzir as contradições, quase sempre, vem acompanhada de um custo bastante elevado. Imaginemos a situação do intelectual que rejeitava o atraso da sociedade russa, mas via também a adesão indiscriminada a uma mentalidade ocidentalizante e capitalista com muitas reservas. Seguramente não era a mais confortável. Mais sério ainda, em um momento em que boa parte da intelligentsia se deixava seduzir pelo apelo da razão revolucionária armamentista não cerrar fileiras com o movimento seria um pecado imperdoável. (DIAS; 2010 : 306)
O autor em suas próprias palavras nos diz sua posição sobre esse “pecado imperdoável”, diante deste “crime” Dostoievski pergunta ao leitor “Mas não vos parece, senhores, que eu me arrependo e que vos peço perdão de não sei que crime? Estou certo senhores, de que ides imaginar isso. Mas aliás, digo-vos que, quer vós o imagineis ou não, isso me é indiferente.”





[1] MARIATEÉGUI, José Carlos. Revolução Russa: História, Política e Literatura. Org., tradução e prefácio: Luiz Bernardo Pericás. 1ª edição – Ed. Expressão Popular. São Paulo. 2012.
[2] Por Camillo César Alvarenga , estudante da disciplina de Marxismo latino americano.
[3] TROTSKI, Leon. Literatura e Revolução. Tradução Moniz Bandeira. Zahar – Rio de Janeiro.1980.
[4] Ver Karl Manhein Sociologia da cultura edições Perspectiva.
[5] MAIACOVSKY, Vladmir. Antologia Poética. Estudo Biografico e tradução de Emilio C. Guerra.  Editora Max Limonad.São Paulo.2ª edição. 1983.
[6] CHEKHOV, Anton Pavlovich. A dama e outras histórias – Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.
[7] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Notas do subsolo/Fiódor Dostoiévski; tradução de Ruth Guimarães. – Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009.
[8] PASTERNAK, Boris. Doutor Jivago. Record. S.d.
[9] Apontado por Jaime Ginsbourg

quinta-feira, 25 de abril de 2013

XII


Ao passo que desenvolvo uma leitura crítica e radical ao pensamento marxiano para extirpar do pensamento social toda ortodoxia das formas de pensamento engessadas e de pouco  poder discursivo sobre o conteúdo de natureza e forma marxista, opero assim a prova dos 9 de Karl Marx. Para abrir caminho ao pensamento mais contemporâneo em regime de análise e crítica. Enquanto isso, segue o link para um texto meu sobre Norbert Elias e a Teoria Simbólica publicado recentemente no Blog Café com Sociologia, que com a capitania de Cristiano Bodart e Roniel Sampaio, estes que também organizam a Revista Acadêmica Café com Sociologia, uma bela inciativa para o pensamento sociológico no Brasil.

                                                                 


                                            ( *22. 6. 1897 - +1. 8. 1990 )

sábado, 13 de abril de 2013

LAUDA X


Pierre Bourdieu: Por uma macrossociologia entre campos e habitus, estruturas e práticas no contemporâneo.



“A máquina de costura só foi inventada quando as pessoas deixaram de imitar os gestos da costureira: sem dúvida, a sociologia tiraria a melhor lição de uma justa representação da epistemologia das ciências da natureza se se empenhasse em proceder à verificação permanente de que está construindo verdadeiramente máquinas de costura, em vez de transpor, de forma irrelevante, os gestos espontâneos da prática ingênua” (BOURDIEU, P.,CHAMBOREDON, J-C., PASSERON, J-C. Ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia.4ª Ed.. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004, p.36)
Introdução

No exercício de construção de uma literatura científica, com bases em vista da formação de um novo paradigma teórico, metodológico e epistemológico para as Ciências Sociais, a obra do francês Pierre Bourdieu (1930 – 2002) é um rico e ilustrativo exemplo da possibilidade de uma concatenação e orquestração de postulados clássicos, para fins de estabelecer premissas que possam corroborar na busca por esquemas de interpretação da realidade social e do lugar do sociólogo na atualidade.

Assim, no percurso povoado por obras como Profissão de Sociólogo: Preliminares epistemológicas[4] (1999), O senso prático (2009), A economia das trocas simbólicas entre outras, se espraia, de tal maneira, num vasto horizonte intelectual uma perspectiva crítica de síntese do pensamento clássicos em sociologia, desdobrando-se numa abordagem construtivista estrutural – macrossociológica – dos fenômenos sociais e suas relações com os indivíduos e de forma que o mundo social que é visto, entendido e interpretado à luz de um complexo de conceitos e categorias tais como habitus, campos, práticas, estruturas estruturantes, estruturas estruturadas, o que se revela enquanto estratégia teórica encarnada em um aporte metodológico rígido que possibilita por sua vez a emergência de um protótipo epistemológico relacional onde se funda traços da ciência social moderna.

Logo, apresentados a esse prisma, breve e rarefeito, do pensamento do sociólogo francês em questão, possamos agora nos aprofundar numa busca por uma visão analítica e uma compreensão ainda que recortada de pontos cruciais da estrutura de pensamento deste cientista social de nosso tempo.

I – A práxis da ruptura, o ofício e a vigilância científica: A epistemologia como balança entre a teoria, método e objeto de pesquisa Ciência Sociais.

Em Bourdieu, o anseio pela “modelagem” de novas formas de construção dos pontos de vista críticos acerca do real são quase obsessão, desde a Miséria do Mundo com suas entrevistas e engenho de dados quantitativos aliados a depoimentos onde se ouve o eco da subjetividade, aparece uma nova proposta, de certa forma, onde alinham-se a técnica do pesquisador ao olhar mais apurado desenvolvido sobre seu objeto, ou seja, uma espécie de “práxis cientifica” se origina no seio do pensamento social; o que por sua vez requer do sujeito pesquisador uma consciência do seu trabalho no qual uma “distinção” entre as formas de conhecimento se elaboram, a partir da qual se opera uma insidiosa relação entre “comunidade científica” que legitima, avalia e coordena os valores da “atividade científica” o que apresenta no contexto da sociologia  do conhecimento como “força” que age no campo afim de conter e administrar as rupturas causadas por revoluções científicas as quais transformam os movimentos internos da prática teórica  bem como seus paradigmas e os pontos de partida para a construção de hipóteses e como desenvolvê-las em face as contradições que se evidenciam na práxis da pesquisa empírica – rompimento com o senso comum, vigilância científica – em decorrência do complexo crítico entre metodologias e orientações epistemológicas que norteiam o fazer sociológico e suas nuances.

II. A lógica sociológica: a ossatura e o holograma da teoria social bourdiana.

A sociologia é o plano cartesiano onde se ligam ponto a ponto os pressupostos da teoria social e das ciências humanas como um todo abrangente e (ina)harmônico  no qual se agregam possibilidades de apontar caminhos para o estudo da vida em sociedade.

Nesse sentido, o autor em questão, ao abordar um elaborado arquipélago de conceitos, nos lega um conjunto de chaves interdependentes e suas implicações. O que diz respeito às questões de aplicação a uma realidade específica, nos atentaremos para o campo das Artes. Sobre o qual Bourdieu explicita e delineia contornos através dos quais categorias como estrutura, habitus[11] – “arte de inventar” que “confere as práticas sua independência relativa em relação às determinações exteriores do presente imediato” – e práticas[12] – “atividade real como tal” – ganhar forma de maneira que a impressão refletida da teoria permite um debate sobre alcance e validade do projeto teórico de Bourdieu.

É mister partirmos do esclarecimento de que  para o artista das estruturas servem como instâncias de consagração sejam as academias, os museus, as universidades, no livro Amor pela arte, Bourdieu explana sobre o fazer artístico, as relações entre os espaços de exposição da prática artísitca e seu encontro com o público. A imprensa, as editoras, toda a estrutura que aloca e mobiliza as forças em torno da obra de arte funcionam como agentes que acionam e dão margem de crescimento do capital cultural, social e simbólico da obra de arte a ser produzida.

Já na obra o Senso Prático...

“Nada é mais enganador do que a ilusão retrospectiva que revela o conjunto dos traços de uma vida, tais como as obras de um artista ou os acontecimentos de uma biografia, como a realização de uma essência que lhes preexistiria: da mesma maneira que a verdade de um estilo artístico não está inscrita em germe em uma inspiração original, mas se define e se redefine continuamente na dialética da intenção de objetivação e da intenção já objetivada, da mesma maneira é pela confrontação entre as questões que não existem senão pelo e para um espírito armado de um tipo determinado de esquemas e de soluções obtidas pela aplicação desses mesmos esquemas, mas capazes de transformá-los, que se constitui essa unidade de sentido que, retrospectivamente, pode parecer ter precedido os atos e as obras anunciadoras da significação final, transformando retroativamente os diferentes momentos da série temporal em simples esboços preparatórios” (BOURDIEU, 2009, p.91)

O artista por sua vez, que é indivíduo, mas que é imagem e representação de um grupo, é ele quem incorpora uma coletividade de maneira que corporifica gostos e assume posturas, aponta estéticas e identifica tendências para engendrar um olhar e uma prática social consubstanciada num habitus – ainda que considerando as “dificuldades propriamente científicas que faz surgir” – que se forma na condição em que se estabelece no “jogo” do sujeito ou do seu grupo diante das classes sociais – que são configurados pela lógica da dominação entre os grupos dominantes e dominados – do capital econômico, político, sendo que a identificação se apresenta de acordo ao contexto das relações de poder e suas condicionantes o que aproxima a teoria do real.

III. “A Revolução não vai passar na TV”: Os limites da transformação e a reprodução social.

O arguto edifício intelectual, erigido pelos argumentos de Bourdieu, no decorrer da sua obra, nos possibilitam avistar um avatar através do qual a teoria social é um corpo de estruturas de pensamento e percepção da realidade arquitetadas, de modo tal, que o arranjo entre as forças que agem no interior da dinâmica social aparecem cimentadas sob o jugo da relação entre ordem – consubstanciada na força do habitus como nos diz, o autor em Senso Prático, que
 “nas formações sociais em que a reprodução das relações de dominação (e do capital econômico ou cultural) não é garantida pelos mecanismos objetivos, o incessante trabalho necessário para manter as relações de dependência pessoal estaria de antemão destinado ao fracasso caso ele não pudesse contar com a constância do habitus, isto é, o organismo que como grupo dele se apropriou e que ele é de antemão atribuído às exigências do grupo, funciona como a materialização da matéria coletiva, reproduzindo nos sucessores a aquisição dos predecessores” (BOURDIEU, 2009, p.90)
Além das normas e o conflito entre dominantes e dominados adornada pelas interações “sociais”, “simbólicas”, “econômicas”, “políticas” e “culturais” que tem por princípio a relação com o capital em suas mais variadas formas.

Tomando por base as multifacetas do sistema social capitalista, a teoria do francês, vêm com o intuito de trazer à tona um método que possa abarcar epistemológica e a sociologicamente as mais variadas gradações de manifestação das formas de dominação ou premiação que o processo coletivo oferece.
Por sua vez, nessa tarefa imposta a um projeto intelectual de tamanha envergadura nós conjecturamos entre outros entre outros desdobramentos, a limitação de transformação social, já que os movimentos societais, comandam as práticas sociais. O que nos revela a predominância da estrutura sobre o sujeito, do método e teoria em relação dialética com o objeto e da relação dialógica entre empiria e epistemologia em sociologia; assinalando de forma categórica o soerguimento da reprodução social como força de conservação da substância social.

IV – Considerações preliminares: Uma teoria, sua crítica e o não fim da análise.

Tendo partido em busca de uma fonte de recursos que salientassem os destaques no arcabouço teórico, metodológico epistemológico e indicassem sinais de cognição da sociologia e da sociologia do conhecimento de Bourdieu, encontrou-se pelo caminho uma ideia contundente de distanciamento no que tange ao ofício do sociólogo para que seja possível a produção de um método a partir do real e com bases empíricas sólidas, além de estar aliada a uma constante vigilância contra o espontaneismo de sociologias efêmeras.
Trata-se de escapar ao realismo da estrutura ao qual o objetivismo, momento necessário da ruptura com a experiência primeira e da construção das relações objetivas, conduz necessariamente quando hipostasia essas relações ao tratá-las como realidades já constituídas fora da história do individuo e do grupo, sem recair, no entanto, no subjetivismo, totalmente incapaz de dar conta da necessidade do mundo social: para isso, é preciso retornar a prática, lugar da dialética do opus operatum e do modus operandi, dos produtos objetivados e dos produtos incorporados da prática histórica, das estruturas e dos habitus. (BOURDIEU, 2009, p.86-87)
Deparamos-nos também com a tradição francesa bem representada nos conceitos de estrutura e seu envolvimento direto com a noção de construtivismo em face a objetividade nas ciências sociais, operando assim “um questionamento radical do modo de pensamento objetivista”, logo

“A teoria da prática como a prática evoca, contra o materialismo positivista, que os objetos são construídos, e não passivamente registrados e, contra o idealismo intelectualista, que o princípio dessa construção é o sistema das disposições estruturadas e estruturantes que se constitui na prática e que é sempre orientado para funções práticas.” (BOURDIEU, 2009, p.86)

Aparece também o lugar da praxeologia. Além de que a leitura de uma miscelânea de textos aponta para a coleção de abordagens dos conceitos e suas complexas aplicações e explicações. Pois que em vários aspectos os conceitos se adequam aos objetos das teorias e as relações que estas estabelecem com seus objetos frente a premissas metodológicas e pressupostos epistemológicos.

Enfim, preliminarmente surge do mosaico de vertentes do ambiente intelectual resultante da leitura crítica e analítica de parte da vasta obra deste autor, que a essência das suas arregimentações esta repousada sobre a lógica do “jogo” pela dominação e a função social que possui, ainda, uma  noção coletiva de hierarquia, em suas mais variadas formas e fontes de poder, que se apresentam no contexto da modernidade.





[11] “sistemas de disposições duráveis e transponíveis, estruturas estruturadas e predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como princípios geradores de práticas e de representações que podem ser objetivamente adaptadas ao seu objetivo sem supor a intenção consciente de fins e o domínio expresso das operações necessárias para alcança-los, objetivamente “ reguladas” e “regulares” sem nada ser o produto da obediência a algumas regras e, sendo tudo isso, coletivamente orquestradas sem ser o produto da ação organizadora de um maestro. (BOURDIEU, 2009, p.86)

[12] “Só se pode explicá-las, portanto, com a condição de relacionar as condições sociais nas quais se constituiu o habitus  que as engendrou e as condições sociais nas quais ele é posto em \ação, ou seja, com a condição de operar pelo trabalho cientifico a relação desses dois estados do mundo social que o habitus efetua, ao ocultá-lo na e pela prática” (BOURDIEU, 2009, p.93)

LAUDA IX

Entre o Sujeito e o Objeto há o Método: a influência de Comte e do Positivismo na Sociologia e em seu nascimento.


A ideia e concepção de ciência segundo a corrente filosófica positivista, deu início a uma nova forma de pensar e produzir conhecimento no século 19, encontrando em Auguste Comte seu óvulo imanente. Assim, tem-se sobre as mais diversas áreas do conhecimento, entre elas a Sociologia, que a partir do movimento positivista emerge enquanto ciência empírica, as mais variadas formas de transformação de paradigmas na transição do sistema filosófico clássico para a era das ciências modernas com a condição de imposição de limites lógicos e paradigmáticos, mais pragmáticos, para uma outra possível interpretação e explicação da realidade.

Logo, acontece a necessidade de instauração de novos métodos através das conceituações e ramificações das categorias em gêneros e espécies, possibilitando a Sociologia, ciência recém inaugurada, uma metodologia devidamente mais apropriada, segundo a estruturação da ciência enquanto pensamento positivista nos moldes comteanos, para a análise e observação e explicação determinando as causas e os efeitos das manifestações da fenomenologia social aparente.

De tal modo que, as fronteiras da filosofia são circunscritas no limiar da especulação filosoficamente hermenêutica do positivismo, o que permitiram a Durkheim metodologizar a principiologia que iria reger as ciências humanas como um todo durante tão profícuo século. A função e papel de importância que cumpre o positivismo é a possibilidade de abstrair da realidade um conjunto de regras e normas, dentro de um desenvolvimento cientificista através da busca de padrões e médias no comportamento do corpus social numa análise baseada no empirismo, que originem paradigmas para a consubstanciação das manifestações das esferas societais e suas explicações possíveis.

Do Conceitualismo: Durkheim e o conceito de solidariedade social.

Por conseguinte, o desvelamento de conceitos operados por Durkheim no interior de uma ciência da envergadura da Sociologia, são desde seus alicerces fundantes, ou seja,  caracteres de princípios  de contra pontos firmes às correntes sociológicas, desdobraram-se doravante os estudos do autor de O Suicídio. 

Entre eles na sua tese de doutorado – Da divisão do trabalho social – encontra-se uma das suas ideias centrais e uma bela caracterização de um possível organograma social. A forma e a organização da sociedade a partir do trabalho têm impactos e dispersa influências preponderantes no universo da cosmogonia Sociológica de então.

Pois que, passamos a um entendimento no qual a sociedade tendo como pressuposto a supremacia do todo sobre as partes, justificaríamos de antemão a hegemonia do coletivo sobre o individual e a lógica da reprodução pela representação e a lógica da reprodução pela representação teria mais um conjunto de bases intelectualmente estáveis.

De sobremodo que essa individualização do coletivo por parte do ser social do sujeito, se daria através de suas especificidades técnicas e práticas evidenciadas, sobretudo, no trabalho, o que decorreria a todas as suas manifestações em sociedade.

Não obstante, em seu conceito de Solidariedade Social a “consciência coletiva” sobrepuja a individualidade, onde um “sujeito social” prenhe de uma gama de “objetos subjetivos” como sentimentos, valores, e entes sagrados comuns insere-se na dinâmica societal em função da coletividade reproduzindo seus hábitos e crenças e se  materializam corolário a execução das letras jurídicas, qual no tocante a aplicação do ordenamento penal (conceitualização e exemplificação do fato social).

Consolidada assim a interação simbiótica entre individuo e sociedade, percebe-se o imbricamento do “eu” na superestrutura societal e a categorização dos paradigmas durkheimianos para não só descrever, mas explicar os modos de intercomunicação entre o ser social e a sociedade.


Cachoeira 13.04.2010.

segunda-feira, 25 de março de 2013

LAUDA VIII


 Sobre o grafite e Gombrich, Giddens, Baudrillar e Bourdieu.


Gombrich me interessa sim, principalmente as questões que ele propõe sobre norma e forma, só que tenho partido em busca de uma construção de uma sociologia da arte, ou melhor uma sociologia da cultura moderna, eminentemente moderna, e isso requer que eu delimite minha noção de moderno, mas com certeza recorrei a ele para algumas definições.

Falo dos anos 60 como ponto de inflexão do século 20, ainda num processo que ocorre dentro da própria modernidade, mas alguns autores como Habermas apontam Nietsche como ponto de virada da modernidade para a pós-modernidade.

No entanto, nossa hipótese de trabalho, por exemplo, não assume a propriedade do debate sobre o conceito de pós-modernidade; as noções de “desencaixe” e “compressão espaço tempo”, identificadas em Giddens são interessantes a partir do momento que incidem sobre a observação das formas de comportamento social, e, consequentemente, das formas de produzir e perceber a obra de arte, já que é na esfera das belas artes que a modernidade tem origem enquanto fenômeno social em percepção, análise e crítica.

Penso que, em relação a relativizações, é preciso ser precavido, já que a radicalidade das formas sociais e culturais que, passam por um processo de hiperrealismo, nos leva a construção de uma realidade simbólica que se sobrepuja esmagadoramente a realidade material e econômica.

Assim, a dimensão fantasmagórica da mercadoria (desde o corpo até as práticas dos sujeitos, no nosso caso os artistas), como correlato da vida em sociedade e sua fundamentação objetiva, como apontou Marx, nos direciona para a percepção de que o mundo que Baudrillar descreve em "simulacros" se efetiva a partir da reprodução de projeções derivadas dos bens simbólicos, os quais possuem um conteúdo de potente significado e sentido que são abstraídos da forma objetiva da mercadoria.

A obra de arte, enquanto forma mercadoria, revela que, o contato e a mediação entre a intenção do artista de comunicar, está resguardada no conteúdo pleno de sentido e significação que a obra comunica. Esse conteúdo é a natureza “espiritual”, estética e filosófica que preenche a expressão artística e atribui e configura as condições de existência da obra.

Na Modernidade, esta forma histórica preenhe de conservantismo, formas colonialistas conservadoras e conservadas, num processo de subjugação das expressões contra-hegemônicas, ideologia da exclusão e invisibilização na luta pela dominação, uma resistência se coloca tomando o grafite como objeto; ainda é possível ante aquilo que se sobrepõe à arquitetura e ao audiovisual?

O grafitti é a imagem plástica em seu sentido mais orgânico no movimento de forças de uma sociedade urbana capitalista pós industrial no ocidente, é a expressão do conflito entre valores estabelecidos e crítica social, através da obra de arte, já que tem como fundo o áudio da cidade, a luz natural do sol e artificial dos postes, e, como fim, a consciência social e histórica da sociedade numa perspectiva de crítica radical às formas de arte coisificadas no mercado de bens simbólicos da economia burguesa mais desenvolvida.

Essa negação da arte "livre" simplesmente vem pela necessidade de atribuir sentido e significado ao sistema de ordem política e econômica na qual os objetos de arte são submergidos a fim de produzirem lucros materiais por via de seus mecanismos de representação do mundo social, e antes pela capacidade de simbolização de uma esfera da vida social.

Assim, não consideramos aqui, o "fim da arte", mas sim, a determinação do mundo social pelo mundo cultural, e isso se torna mais agudo no contexto da década de 60, só que, a partir daí, tomo esse período como modernidade radicalizada, para poder entender como, por exemplo, o grafitti que marca o muro de Berlim, até o final dos anos 90 não era considerado arte, por parte de alguns teóricos da estética na era contemporânea, como Dabney Towsend que diz :
"Se o grafitti se tornar arte, passaremos a olhar pra edifícios e para as palavras sob uma nova perspectiva." ( Townsend, 1997, p.150)

Reitera-se o lugar de centralidade do mercado na manifestação das relações sociais e até nos processos de socialização. Agora  observa-se a compreensão da manifestação da obra de arte,  que então até os limites do modernismo, configura uma série de sistemas e formas de consumo e fruição que vão além da produção da arte moderna, como se a arte ultrapassasse os contornos da conjuntura estabelecida para sua objetivação enquanto tal. 

É mister encontrar lugar para obra de arte nessa era do consumo, se por exemplo, o grafite não pode ser vendido como uma tela, mas pode ser encomendado e feito em espaços públicos ou privados como muralismo e hoje em dia já existe até bienal do grafite. 

Mas ainda, a questão sobre o moderno é que, se não há definição para o contemporâneo que começa provavelmente depois dos anos 60, não sei se é um referencial, e menos ainda se compartilhamos deste ponto de partida, mas os fenômenos artísticos que se emancipam da esfera das galerias, exposições, da academia, etc., como arte publicitária por exemplo, de que forma podem ser entendidas a partir dos movimentos nas esferas da cultura?

Enfim, a questão do mercado é um ponto central sobre o qual Bourdieu destaca e sustenta a possibilidade autonomia (relativa) do campo artístico, e que esta só se efetiva quanto se estabelece o “mercado dos bens simbólicos” e isso em sua devida forma eminentemente moderna, como é estabelecida, manifestada e definida na modernidade.

segunda-feira, 4 de março de 2013

LAUDA VII

Émile Durkheim: breves notas.

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Nas Regras do Método Sociológico, obra que é pedra angular nos estudos paradigmáticos e metodológicos em ciências sociais, Émile Durkheim (1858-1917) expõe sobriamente os princípios que irão reger a investigação e atividade sociológica dali em então.


Na busca por estabelecer bases sólidas ele vale-se das relações de causa e efeito e do sistema comparativo em alta na etnologia que por hora também se desenvolvia, a saber, que o processo histórico na teoria durkhemiana pode ser visto enquanto um laboratório do social, uma coleção de elementos e fatos que permitam perceber uma um encadeamento e por sua vez uma possibilidade de concatenar de forma harmônica no intento por buscar um equilíbrio através da concepção de uma possível morfologia na qual o sistema social agindo de modo determinante sobre as “consciências individuais” possibilitam a perpetuação dos fatos sociais.

Dessa maneira o autor demonstra as premissas que vão nortear o desenvolvimento do pensamento social científico estabelecido em parâmetros que questionaram de maneira crítica as relações entre teoria social e reprodução social no alvo da manutenção das estruturas e mecanismos de funcionamento do arquipélago de eventos que compõe o “sociaux”.
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No bojo da sociologia de Durkheim se elabora um conjunto de argumentos revestidos em conceitos, classes e categorias que visam modelar o real a partir da pujança das formas societais.

De tal maneira, a religião – instituição social que reúne uma maneira de proceder sobre a realidade que se impõem sobre o processo de estabelecimento da relação entre o homem e o mundo – produz por sua vez uma cosmologia, ou seja, uma cosmovisão que se formula de modo a estruturar o modelo de compreensão da consciência particular a partir das representações sociais da consciência coletiva.

Assim no escopo do corpus de instrumentos utilizados para interpretar, ou melhor, apreender o real, exterior, sensível ao indivíduo se configura uma série de aparatos de conhecer o real. De forma que no interior da escola sociológica francesa, uma teoria do conhecimento se conjectura medianamente crítica ao empiricismo inglês e a redefinição das linhas que contornam a concepção do neo criticismo kantiano.
Redefinindo os pressupostos epistemológicos nos quais a ideia da razão é posta de maneira relacional ao conceito de empirismo no modo de interagir com o real, emergem assim postulados que comportam a consciência e seus fenômenos em seus níveis de percepção configurados no seu ousado plano das categorias fundamentais do entendimento humano além de ver nos fenômenos sociais a manifestação da dominação das estruturas coletivas sobre as estruturas de cognição individual.

A coisa sui generis que é a experiência do “sociaux” é o movimento que estipula e corporifica o paradigma de Durkheim no tocante as relações do sujeito cognoscente frente ao objeto cognoscível, bem como para entender e explicar todo amplo complexo que se estabelece no seio das relações que acontecem no ambiente das práticas religiosas.
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Categoricamente, sua visão considera acerca do sistema religiosos e consequentemente a identificação de uma economia sistemática de produção de valores, morais, éticas e, por conseguinte, da criação de formas materiais que representem uma interface entre o homem e o sagrado.

Seja de maneira concreta nos totens e símbolos, ou de forma performática e ritualística nos cultos ou celebrações cerimoniais, as ações nas quais se cristaliza o conceito de religião para nosso autor, está indubitavelmente atrelado a parte que cabe ao todo social e sua função, poder e lugar de importância na esfera da arquitetura dos movimentos societais, onde a espontaneidade aparece como projeção ideal e metafísica da vida material objetiva.

E entendendo os seres espirituais que agem no organograma religioso como parte que esta além de si mesmo, no que diz respeito ao indivíduo, o qual encontra a dimensão espiritual no dialogo da consciência individual com a entidade suprassensorial que é o todo social em sua expressão plena de influência e somatismo no ser social, ou seja, a produção da crença enquanto valor compartilhado que permite a percepção de um ponto de vista e referencial comum.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

LAUDA VI





O cientista social entre o distanciamento do objeto e a produção de conhecimento nas Ciências Sociais: Comte-Durkheim, Dilthey-Weber e o pensamento social europeu entre a França e a Alemanha.
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Se o capitalismo é caracterizado entre outras formas pela concorrência, no plano da corrida pela hegemonia intelectual esse traço é ainda mais agudo, senão dizer inevitável. O processo de dominação social, política e econômica no ocidente perpassa de maneira profunda o plano da cultura, mais especificadamente o construto das ideias e, por conseguinte, das práticas que regem a vida social.

Pós revolução industrial e revolução francesa, tem-se um contexto de supremacia do ideário da modernidade racionalista iluminista.Tendo ocorrido na Inglaterra, o empirismo de Bacon e na França os fenômenos desde o enciclopedismo, como a exemplo, a sistematização do poder político de Montesquieu, se encaminhou, então, a humanidade à uma era sem precedentes e que ainda não se pode medir suas irreversíveis consequências.

Nesse contexto, as inquietações a fim de produzir uma cosmovisão que dê conta de contornar as questões sociais, postas para a nova sociedade em formação/transformação, era necessário o surgimento, não só de uma outra forma de conhecimento, mas de uma nova ciência propriamente dita.

O estudo de formas e fenômenos sociais, pressupõe um conjunto de técnicas e instrumentos para a investigação da realidade social, este conjunto configura o método. Esse articulado entre estratégias e procedimentos, práticas e equipamentos intelectuais, permite ao sujeito investigador percorrer um caminho no processo de produção do conhecimento. Caminho no processo de produção do conhecimento. Caminho este que pode ser refeito ou posto em crise, pelo cientista que o suceder.

A ritualística, até então representada, compõe o cenário da práxis científica no que toca a operação e observação da experiência no campo científico. Nesse sentido, na grande área das ciências sociais, emergiram do prisma da racionalização três grandes tradições: o materialismo histórico dialético, o funcionalismo e a hermenêutica para uma sociologia compreensiva.

Neste universo epistemológico, onde concorrem sistemas de pensamento, que ora prezam pelo movimento e pela transformação, ora pela harmonia e estabilidade, ou então, pelo paradigma da interpretação (respectiva ao parágrafo anterior) o cientista social, se vê crítico, ante o espelho da tradição.
Com o fim do romantismo, na segunda metade do século 18 e os desenvolvimentos, por exemplo, de Humboldt, a Alemanha que havia operado com Goethe uma espécie de instauração de uma cultura de civilização, vê nos avanços oriundos de uma nova reunião de intelectuais num círculo da alta burguesia alemã no início do século 19, a aparição da sociologia compreensiva que nasce sob a égide da hermenêutica e postula métodos para interpretação do social, a partir da distinção entre explicação (eklaren) e a compreensão (verthsen) desenvolvidas entre outros, por Dilthey. Enquanto na França, Augusto Comte, reuni as mais variadas orientações das ciências naturais e aplica numa perspectiva de fundacionismo filosófico para o tratamento dos fenômenos sociais. Desde a física social ou até mesmo recursos estatísticos da matemática são invocados para significar a filosofia positiva.

As administrações de Weber, por parte da tradição alemã, e de Durkheim, da tradição francesa, apontaram durante o século 19 e, até hoje, para a leitura do todo social com distinções que vão desde o lugar da história, o tratamento do materialismo, a contradição entre dedução e indução, a determinação da parte pelo todo, do sentido no praticar e no coletivo, na propedêutica acerca de questões às ciências sociais, até hoje centrais, como trabalho e religião.

Considerando em especial a premissa postulada pelo pensador alemão Max Weber que assinala sua empreitada metodológica com a noção de “neutralidade axiológica”, nos encontramos aí neste ponto com uma problemática de tal relevância que nos faz inferir sobre a gênese da teoria social moderna, quiça dizer até mesmo que o paradigma que orienta as relações entre sujeito e objeto se altera com o tempo, com a filosofia dominante e as abordagens que predominam em dado período, nos arriscando a categorizar uma certa espécie de determinação de uma tipologia como historicismo analítico.

Nesse percurso do trajeto de fundação, criação e legitimação das Ciências Sociais, a necessidade de autoafirmação de uma maneira própria de fazer ciência e a busca por reconhecimento do saber produzido nesta esfera, levou os cientistas sociais do final do século 19 até o início do século 20, a exemplo de Weber, a desenvolverem soluções metodológicas e epistemológicas para o estabelecimento de uma normativa, que organizasse e pudesse justificar o conhecimento produzido nesta seara científica.

No caso especifico de Weber o recurso utilizado foi além da construção dos “modelos” através dos “tipos ideais” foi a busca por uma transparência metodológica, que tomou forma concreta no debate sobre a objetividade nas ciências sociais. A saída encontrada pelo autor alemão, que viveu nos EUA no começo do século passado e deu os traços finais a sua obra, antes de morrer, após retornar da América, revelou que uma tentativa para ausentar o pesquisador da parcialidade ou da classe social, raça, etnia, ideologia, interiores econômicos, ou relações de poder na qual se está envolvido, só seria possível se fosse operada uma suspensão, ou melhor, uma neutralização dos valores.No entanto, não podemos nunca esquecer que entre o individuo e a sociedade, o sujeito e o objeto, a alienação e a realidade, existe uma força que realiza uma mediação entre o olho que vê e a lente que ajuda a enxergar; a relação de interdependência entre a ação social e a história.

De forma que a “guerra” epistemológica das ciências sociais, do seu surgimento até hoje, demarca e circunscreve, ora o positivismo que caminhou até o estrutural funcionalismo parsoniano, ora a hermenêutica que alcançou uma forma contemporânea na “interpretação das culturas” de Geertz demonstrando o potencial reflexivo e plurissignificativo no processo de produção do conhecimento em ciências sociais bem como, a manutenção de fidelidade à origem epistemológica a qual o pesquisador se sente afiliado e, que segue um macroprojeto de pensamento, representando uma tomada de posição e a assunção das consequências desta escolha entre alternativas postas como tais.