sábado, 13 de abril de 2013

LAUDA IX

Entre o Sujeito e o Objeto há o Método: a influência de Comte e do Positivismo na Sociologia e em seu nascimento.


A ideia e concepção de ciência segundo a corrente filosófica positivista, deu início a uma nova forma de pensar e produzir conhecimento no século 19, encontrando em Auguste Comte seu óvulo imanente. Assim, tem-se sobre as mais diversas áreas do conhecimento, entre elas a Sociologia, que a partir do movimento positivista emerge enquanto ciência empírica, as mais variadas formas de transformação de paradigmas na transição do sistema filosófico clássico para a era das ciências modernas com a condição de imposição de limites lógicos e paradigmáticos, mais pragmáticos, para uma outra possível interpretação e explicação da realidade.

Logo, acontece a necessidade de instauração de novos métodos através das conceituações e ramificações das categorias em gêneros e espécies, possibilitando a Sociologia, ciência recém inaugurada, uma metodologia devidamente mais apropriada, segundo a estruturação da ciência enquanto pensamento positivista nos moldes comteanos, para a análise e observação e explicação determinando as causas e os efeitos das manifestações da fenomenologia social aparente.

De tal modo que, as fronteiras da filosofia são circunscritas no limiar da especulação filosoficamente hermenêutica do positivismo, o que permitiram a Durkheim metodologizar a principiologia que iria reger as ciências humanas como um todo durante tão profícuo século. A função e papel de importância que cumpre o positivismo é a possibilidade de abstrair da realidade um conjunto de regras e normas, dentro de um desenvolvimento cientificista através da busca de padrões e médias no comportamento do corpus social numa análise baseada no empirismo, que originem paradigmas para a consubstanciação das manifestações das esferas societais e suas explicações possíveis.

Do Conceitualismo: Durkheim e o conceito de solidariedade social.

Por conseguinte, o desvelamento de conceitos operados por Durkheim no interior de uma ciência da envergadura da Sociologia, são desde seus alicerces fundantes, ou seja,  caracteres de princípios  de contra pontos firmes às correntes sociológicas, desdobraram-se doravante os estudos do autor de O Suicídio. 

Entre eles na sua tese de doutorado – Da divisão do trabalho social – encontra-se uma das suas ideias centrais e uma bela caracterização de um possível organograma social. A forma e a organização da sociedade a partir do trabalho têm impactos e dispersa influências preponderantes no universo da cosmogonia Sociológica de então.

Pois que, passamos a um entendimento no qual a sociedade tendo como pressuposto a supremacia do todo sobre as partes, justificaríamos de antemão a hegemonia do coletivo sobre o individual e a lógica da reprodução pela representação e a lógica da reprodução pela representação teria mais um conjunto de bases intelectualmente estáveis.

De sobremodo que essa individualização do coletivo por parte do ser social do sujeito, se daria através de suas especificidades técnicas e práticas evidenciadas, sobretudo, no trabalho, o que decorreria a todas as suas manifestações em sociedade.

Não obstante, em seu conceito de Solidariedade Social a “consciência coletiva” sobrepuja a individualidade, onde um “sujeito social” prenhe de uma gama de “objetos subjetivos” como sentimentos, valores, e entes sagrados comuns insere-se na dinâmica societal em função da coletividade reproduzindo seus hábitos e crenças e se  materializam corolário a execução das letras jurídicas, qual no tocante a aplicação do ordenamento penal (conceitualização e exemplificação do fato social).

Consolidada assim a interação simbiótica entre individuo e sociedade, percebe-se o imbricamento do “eu” na superestrutura societal e a categorização dos paradigmas durkheimianos para não só descrever, mas explicar os modos de intercomunicação entre o ser social e a sociedade.


Cachoeira 13.04.2010.

segunda-feira, 25 de março de 2013

LAUDA VIII


 Sobre o grafite e Gombrich, Giddens, Baudrillar e Bourdieu.


Gombrich me interessa sim, principalmente as questões que ele propõe sobre norma e forma, só que tenho partido em busca de uma construção de uma sociologia da arte, ou melhor uma sociologia da cultura moderna, eminentemente moderna, e isso requer que eu delimite minha noção de moderno, mas com certeza recorrei a ele para algumas definições.

Falo dos anos 60 como ponto de inflexão do século 20, ainda num processo que ocorre dentro da própria modernidade, mas alguns autores como Habermas apontam Nietsche como ponto de virada da modernidade para a pós-modernidade.

No entanto, nossa hipótese de trabalho, por exemplo, não assume a propriedade do debate sobre o conceito de pós-modernidade; as noções de “desencaixe” e “compressão espaço tempo”, identificadas em Giddens são interessantes a partir do momento que incidem sobre a observação das formas de comportamento social, e, consequentemente, das formas de produzir e perceber a obra de arte, já que é na esfera das belas artes que a modernidade tem origem enquanto fenômeno social em percepção, análise e crítica.

Penso que, em relação a relativizações, é preciso ser precavido, já que a radicalidade das formas sociais e culturais que, passam por um processo de hiperrealismo, nos leva a construção de uma realidade simbólica que se sobrepuja esmagadoramente a realidade material e econômica.

Assim, a dimensão fantasmagórica da mercadoria (desde o corpo até as práticas dos sujeitos, no nosso caso os artistas), como correlato da vida em sociedade e sua fundamentação objetiva, como apontou Marx, nos direciona para a percepção de que o mundo que Baudrillar descreve em "simulacros" se efetiva a partir da reprodução de projeções derivadas dos bens simbólicos, os quais possuem um conteúdo de potente significado e sentido que são abstraídos da forma objetiva da mercadoria.

A obra de arte, enquanto forma mercadoria, revela que, o contato e a mediação entre a intenção do artista de comunicar, está resguardada no conteúdo pleno de sentido e significação que a obra comunica. Esse conteúdo é a natureza “espiritual”, estética e filosófica que preenche a expressão artística e atribui e configura as condições de existência da obra.

Na Modernidade, esta forma histórica preenhe de conservantismo, formas colonialistas conservadoras e conservadas, num processo de subjugação das expressões contra-hegemônicas, ideologia da exclusão e invisibilização na luta pela dominação, uma resistência se coloca tomando o grafite como objeto; ainda é possível ante aquilo que se sobrepõe à arquitetura e ao audiovisual?

O grafitti é a imagem plástica em seu sentido mais orgânico no movimento de forças de uma sociedade urbana capitalista pós industrial no ocidente, é a expressão do conflito entre valores estabelecidos e crítica social, através da obra de arte, já que tem como fundo o áudio da cidade, a luz natural do sol e artificial dos postes, e, como fim, a consciência social e histórica da sociedade numa perspectiva de crítica radical às formas de arte coisificadas no mercado de bens simbólicos da economia burguesa mais desenvolvida.

Essa negação da arte "livre" simplesmente vem pela necessidade de atribuir sentido e significado ao sistema de ordem política e econômica na qual os objetos de arte são submergidos a fim de produzirem lucros materiais por via de seus mecanismos de representação do mundo social, e antes pela capacidade de simbolização de uma esfera da vida social.

Assim, não consideramos aqui, o "fim da arte", mas sim, a determinação do mundo social pelo mundo cultural, e isso se torna mais agudo no contexto da década de 60, só que, a partir daí, tomo esse período como modernidade radicalizada, para poder entender como, por exemplo, o grafitti que marca o muro de Berlim, até o final dos anos 90 não era considerado arte, por parte de alguns teóricos da estética na era contemporânea, como Dabney Towsend que diz :
"Se o grafitti se tornar arte, passaremos a olhar pra edifícios e para as palavras sob uma nova perspectiva." ( Townsend, 1997, p.150)

Reitera-se o lugar de centralidade do mercado na manifestação das relações sociais e até nos processos de socialização. Agora  observa-se a compreensão da manifestação da obra de arte,  que então até os limites do modernismo, configura uma série de sistemas e formas de consumo e fruição que vão além da produção da arte moderna, como se a arte ultrapassasse os contornos da conjuntura estabelecida para sua objetivação enquanto tal. 

É mister encontrar lugar para obra de arte nessa era do consumo, se por exemplo, o grafite não pode ser vendido como uma tela, mas pode ser encomendado e feito em espaços públicos ou privados como muralismo e hoje em dia já existe até bienal do grafite. 

Mas ainda, a questão sobre o moderno é que, se não há definição para o contemporâneo que começa provavelmente depois dos anos 60, não sei se é um referencial, e menos ainda se compartilhamos deste ponto de partida, mas os fenômenos artísticos que se emancipam da esfera das galerias, exposições, da academia, etc., como arte publicitária por exemplo, de que forma podem ser entendidas a partir dos movimentos nas esferas da cultura?

Enfim, a questão do mercado é um ponto central sobre o qual Bourdieu destaca e sustenta a possibilidade autonomia (relativa) do campo artístico, e que esta só se efetiva quanto se estabelece o “mercado dos bens simbólicos” e isso em sua devida forma eminentemente moderna, como é estabelecida, manifestada e definida na modernidade.

segunda-feira, 4 de março de 2013

LAUDA VII

Émile Durkheim: breves notas.

***

Nas Regras do Método Sociológico, obra que é pedra angular nos estudos paradigmáticos e metodológicos em ciências sociais, Émile Durkheim (1858-1917) expõe sobriamente os princípios que irão reger a investigação e atividade sociológica dali em então.


Na busca por estabelecer bases sólidas ele vale-se das relações de causa e efeito e do sistema comparativo em alta na etnologia que por hora também se desenvolvia, a saber, que o processo histórico na teoria durkhemiana pode ser visto enquanto um laboratório do social, uma coleção de elementos e fatos que permitam perceber uma um encadeamento e por sua vez uma possibilidade de concatenar de forma harmônica no intento por buscar um equilíbrio através da concepção de uma possível morfologia na qual o sistema social agindo de modo determinante sobre as “consciências individuais” possibilitam a perpetuação dos fatos sociais.

Dessa maneira o autor demonstra as premissas que vão nortear o desenvolvimento do pensamento social científico estabelecido em parâmetros que questionaram de maneira crítica as relações entre teoria social e reprodução social no alvo da manutenção das estruturas e mecanismos de funcionamento do arquipélago de eventos que compõe o “sociaux”.
***
No bojo da sociologia de Durkheim se elabora um conjunto de argumentos revestidos em conceitos, classes e categorias que visam modelar o real a partir da pujança das formas societais.

De tal maneira, a religião – instituição social que reúne uma maneira de proceder sobre a realidade que se impõem sobre o processo de estabelecimento da relação entre o homem e o mundo – produz por sua vez uma cosmologia, ou seja, uma cosmovisão que se formula de modo a estruturar o modelo de compreensão da consciência particular a partir das representações sociais da consciência coletiva.

Assim no escopo do corpus de instrumentos utilizados para interpretar, ou melhor, apreender o real, exterior, sensível ao indivíduo se configura uma série de aparatos de conhecer o real. De forma que no interior da escola sociológica francesa, uma teoria do conhecimento se conjectura medianamente crítica ao empiricismo inglês e a redefinição das linhas que contornam a concepção do neo criticismo kantiano.
Redefinindo os pressupostos epistemológicos nos quais a ideia da razão é posta de maneira relacional ao conceito de empirismo no modo de interagir com o real, emergem assim postulados que comportam a consciência e seus fenômenos em seus níveis de percepção configurados no seu ousado plano das categorias fundamentais do entendimento humano além de ver nos fenômenos sociais a manifestação da dominação das estruturas coletivas sobre as estruturas de cognição individual.

A coisa sui generis que é a experiência do “sociaux” é o movimento que estipula e corporifica o paradigma de Durkheim no tocante as relações do sujeito cognoscente frente ao objeto cognoscível, bem como para entender e explicar todo amplo complexo que se estabelece no seio das relações que acontecem no ambiente das práticas religiosas.
***

Categoricamente, sua visão considera acerca do sistema religiosos e consequentemente a identificação de uma economia sistemática de produção de valores, morais, éticas e, por conseguinte, da criação de formas materiais que representem uma interface entre o homem e o sagrado.

Seja de maneira concreta nos totens e símbolos, ou de forma performática e ritualística nos cultos ou celebrações cerimoniais, as ações nas quais se cristaliza o conceito de religião para nosso autor, está indubitavelmente atrelado a parte que cabe ao todo social e sua função, poder e lugar de importância na esfera da arquitetura dos movimentos societais, onde a espontaneidade aparece como projeção ideal e metafísica da vida material objetiva.

E entendendo os seres espirituais que agem no organograma religioso como parte que esta além de si mesmo, no que diz respeito ao indivíduo, o qual encontra a dimensão espiritual no dialogo da consciência individual com a entidade suprassensorial que é o todo social em sua expressão plena de influência e somatismo no ser social, ou seja, a produção da crença enquanto valor compartilhado que permite a percepção de um ponto de vista e referencial comum.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

LAUDA VI





O cientista social entre o distanciamento do objeto e a produção de conhecimento nas Ciências Sociais: Comte-Durkheim, Dilthey-Weber e o pensamento social europeu entre a França e a Alemanha.
***
Se o capitalismo é caracterizado entre outras formas pela concorrência, no plano da corrida pela hegemonia intelectual esse traço é ainda mais agudo, senão dizer inevitável. O processo de dominação social, política e econômica no ocidente perpassa de maneira profunda o plano da cultura, mais especificadamente o construto das ideias e, por conseguinte, das práticas que regem a vida social.

Pós revolução industrial e revolução francesa, tem-se um contexto de supremacia do ideário da modernidade racionalista iluminista.Tendo ocorrido na Inglaterra, o empirismo de Bacon e na França os fenômenos desde o enciclopedismo, como a exemplo, a sistematização do poder político de Montesquieu, se encaminhou, então, a humanidade à uma era sem precedentes e que ainda não se pode medir suas irreversíveis consequências.

Nesse contexto, as inquietações a fim de produzir uma cosmovisão que dê conta de contornar as questões sociais, postas para a nova sociedade em formação/transformação, era necessário o surgimento, não só de uma outra forma de conhecimento, mas de uma nova ciência propriamente dita.

O estudo de formas e fenômenos sociais, pressupõe um conjunto de técnicas e instrumentos para a investigação da realidade social, este conjunto configura o método. Esse articulado entre estratégias e procedimentos, práticas e equipamentos intelectuais, permite ao sujeito investigador percorrer um caminho no processo de produção do conhecimento. Caminho no processo de produção do conhecimento. Caminho este que pode ser refeito ou posto em crise, pelo cientista que o suceder.

A ritualística, até então representada, compõe o cenário da práxis científica no que toca a operação e observação da experiência no campo científico. Nesse sentido, na grande área das ciências sociais, emergiram do prisma da racionalização três grandes tradições: o materialismo histórico dialético, o funcionalismo e a hermenêutica para uma sociologia compreensiva.

Neste universo epistemológico, onde concorrem sistemas de pensamento, que ora prezam pelo movimento e pela transformação, ora pela harmonia e estabilidade, ou então, pelo paradigma da interpretação (respectiva ao parágrafo anterior) o cientista social, se vê crítico, ante o espelho da tradição.
Com o fim do romantismo, na segunda metade do século 18 e os desenvolvimentos, por exemplo, de Humboldt, a Alemanha que havia operado com Goethe uma espécie de instauração de uma cultura de civilização, vê nos avanços oriundos de uma nova reunião de intelectuais num círculo da alta burguesia alemã no início do século 19, a aparição da sociologia compreensiva que nasce sob a égide da hermenêutica e postula métodos para interpretação do social, a partir da distinção entre explicação (eklaren) e a compreensão (verthsen) desenvolvidas entre outros, por Dilthey. Enquanto na França, Augusto Comte, reuni as mais variadas orientações das ciências naturais e aplica numa perspectiva de fundacionismo filosófico para o tratamento dos fenômenos sociais. Desde a física social ou até mesmo recursos estatísticos da matemática são invocados para significar a filosofia positiva.

As administrações de Weber, por parte da tradição alemã, e de Durkheim, da tradição francesa, apontaram durante o século 19 e, até hoje, para a leitura do todo social com distinções que vão desde o lugar da história, o tratamento do materialismo, a contradição entre dedução e indução, a determinação da parte pelo todo, do sentido no praticar e no coletivo, na propedêutica acerca de questões às ciências sociais, até hoje centrais, como trabalho e religião.

Considerando em especial a premissa postulada pelo pensador alemão Max Weber que assinala sua empreitada metodológica com a noção de “neutralidade axiológica”, nos encontramos aí neste ponto com uma problemática de tal relevância que nos faz inferir sobre a gênese da teoria social moderna, quiça dizer até mesmo que o paradigma que orienta as relações entre sujeito e objeto se altera com o tempo, com a filosofia dominante e as abordagens que predominam em dado período, nos arriscando a categorizar uma certa espécie de determinação de uma tipologia como historicismo analítico.

Nesse percurso do trajeto de fundação, criação e legitimação das Ciências Sociais, a necessidade de autoafirmação de uma maneira própria de fazer ciência e a busca por reconhecimento do saber produzido nesta esfera, levou os cientistas sociais do final do século 19 até o início do século 20, a exemplo de Weber, a desenvolverem soluções metodológicas e epistemológicas para o estabelecimento de uma normativa, que organizasse e pudesse justificar o conhecimento produzido nesta seara científica.

No caso especifico de Weber o recurso utilizado foi além da construção dos “modelos” através dos “tipos ideais” foi a busca por uma transparência metodológica, que tomou forma concreta no debate sobre a objetividade nas ciências sociais. A saída encontrada pelo autor alemão, que viveu nos EUA no começo do século passado e deu os traços finais a sua obra, antes de morrer, após retornar da América, revelou que uma tentativa para ausentar o pesquisador da parcialidade ou da classe social, raça, etnia, ideologia, interiores econômicos, ou relações de poder na qual se está envolvido, só seria possível se fosse operada uma suspensão, ou melhor, uma neutralização dos valores.No entanto, não podemos nunca esquecer que entre o individuo e a sociedade, o sujeito e o objeto, a alienação e a realidade, existe uma força que realiza uma mediação entre o olho que vê e a lente que ajuda a enxergar; a relação de interdependência entre a ação social e a história.

De forma que a “guerra” epistemológica das ciências sociais, do seu surgimento até hoje, demarca e circunscreve, ora o positivismo que caminhou até o estrutural funcionalismo parsoniano, ora a hermenêutica que alcançou uma forma contemporânea na “interpretação das culturas” de Geertz demonstrando o potencial reflexivo e plurissignificativo no processo de produção do conhecimento em ciências sociais bem como, a manutenção de fidelidade à origem epistemológica a qual o pesquisador se sente afiliado e, que segue um macroprojeto de pensamento, representando uma tomada de posição e a assunção das consequências desta escolha entre alternativas postas como tais.

sábado, 15 de dezembro de 2012

LAUDA V



Emíle Durkheim (1858  1917) teórico francês, que estuda fontes de solidariedade, apontadas como mecânica primitiva, mostra de uma sociedade sem Estado e orgânica, caracterizada pela complexidade interdependência das economias e onde tem-se uma espécie de diferenciação obscurecida. Num desenvolvimento metodológico para sociologia, o francês opera seu pensamento cientifico através uma organização social orientada pelo trabalho, como expôs em Da divisão do trabalho social (1893). Dando ênfase no elemento não contratual do contrato, numa espécie de crítica a Spencer, articulando indivíduo e liberdade em função da obrigação social, dependente de um complexo jurídico, econômico, religioso e estético tem-se os "faits sociaux".
Em A Noção de Representação em Durkheim, ensaio de raro fôlego e profunda densidade e rigoroso grau analítico e perspicácia no que tange a aproximação das Ciências Sociais com a Filosofia em regime crítico, escrito por Fernando Pinheiro Filho, que utiliza de aspectos relevantes para discutir conceitos e categorias imprescindíveis para a compreensão do pensamento social do francês, nos apresentando um rico panorama interpretativo.

O exemplo, de As formas elementares da vida religiosa (1912), em que corpo e alma são vistos sob o ponto de mudança social, as "representações coletivas" derivando de certa "consciência coletiva" dariam contornos a uma espécie de "morfologia social" resultante num "simbolismo coletivo" que compreende "determinantes estruturais" "produto dessa determinação" coletiva. A religião vista enquanto um pensamento coextensivo, uma metainstituição numa relação entre crenças religiosas e cognitivas abarcando assim uma teoria geral das representações coletivas.

Em O Suicídio (1897) a vida coletiva é o sinônimo de suas próprias representações, a heurística opera a superação da epistemologia kantiana culminando numa sociologia do conhecimento. Uma evolução da concepção durkheimiana de representação, o neo criticismo: pós-kantismo. Na direção de uma fundamentação racional do conhecimento, mediando a natureza humana e as representações coletivas numa dualidade entre a sociologia das categorias e a teoria das representações.

O corpo, o indivíduo, aquele que se exprime diante do espírito, o pensamento social, a moral que toma a forma de outra coisa que não nós mesmos, resultado do encontro sensibilidade e razão, uma primeira dicotomia do pensamento de Kant, uma crítica ao apriorismo. Caminhando para a origem social dos problemas postos entre a sociologia e a filosofia entende-se com base na leitura, que "o espírito humano é um sistema de fenômenos tomado como coisa, objetivação que supera as idiossincrasias dos psiquismos individuais, ele revela através de sua origem na sociedade a sua verdadeira natureza." A imposição do sagrado, por exemplo, como operação psíquica de síntese das consequências individuais em que se dá sua gênese.

A sociedade que é a transcendência do eu e ao mesmo tempo fonte de humanidade do homem formando sua personalidade na e pela força coletiva, sendo os conteúdos da mente via de entrada para representações coletivas. A representação que enquanto processo de pensamento por percepção é ao passo conteúdo do processo emanando ou afetando a mente sendo capaz de fixar-se. Num misto de representações sensíveis (fluxos não cristalizados) e pensamento conceitual, representações coletivas, associação numa síntese de elementos dispersos no meio social, as representações coletivas remetem à natureza supraindividual do homem, exprime o ideal coletivo que tem origem na religião. São, portanto, impessoais e estáveis, comuns a todos na medida em que emanam da comunidade dos homens e assim, instrumentos de intelecção do mundo e comunicação entre razões individuais.

As representações coletivas, enquanto forma-conteúdo das relações sociais encontra no totemismo o instrumento de justaposição dos indivíduos e os supera na configuração sui generis, é imediatamente hipostasiado simbolicamente no totem do clã, como a força da associação dos homens.

Na religião tomada enquanto metainstituição, simbolização, síntese coletiva que objetiva-se no indivíduo. A totalidade põe em debate a sociologia das categorias e o neocriticismo, numa relação estabelecida entre as representações individuais e as representações coletivas, entendendo representação enquanto síntese preenhe de autonomia. A espiritualidade, característica dos fatos intelectuais, se torna representação social, quando o hiperespírito, a sociedade ("ser especial") totaliza, transpõe as representações coletivas já que o sentido dos conceitos está na realidade coletiva.

Aproximando-se de Kant, põe-se em debate o empirismo e o apriorismo, na busca de entendimento da gênese das representações coletivas na religião, com base em uma epistemologia sociológica dotada de universalidade, observação e experiência do fenômeno social, no qual o real é fundado na experiência do coletivo. Ainda que tempo e espaço precedem, a experiência, são leis do espírito. O real é aquilo que pode ser demonstrado, "é um tecido de relações entre o fenômeno e a coisas em si, sensibilidade e entendimento, representação em relação as categorias socialmente determinadas certame entre razão e experiência, uma superação sócio-filosófica da teoria do conhecimento”.





quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Lauda IV

Enquanto elaboram-se, na cabeça desse leitor, formas mais desenvolvidas de ideias e pensamentos, que mereçam ser compartilhadas neste Blog, deixo-vos com uma atividade apresentada no III Encontro Baiano de Estudos em Cultura neste ano de 2012.

O trabalho intitulado:

ETNOGRAFIA DO SAMBA DE RODA: A RODA VISTA DE DENTRO, PATRIMÔNIO IMATERIAL, ATUALIDADES E REGISTROS;

Possui o seguinte Resumo:

"A presente proposta apresenta o desenvolvimento de um estudo de campo no âmbito da antropologia sócio-cultural e um relato de experiência metodologicamente referenciado numa perspectiva sócio-antropológica com vistas a uma investigação de cunho sócio-histórico-biográfico. Evidenciando a intersecção de abordagens para a leitura e observação do tema da cultura do samba de roda em Cachoeira, tendo o Samba de Roda Suerdieck, o samba de roda de D. Dalva, como objeto central da discussão. No que tange a sua realização enquanto manifestação do fenômeno social contemporâneo e suas implicações, se observa um complexo jogo entre questões sociais, políticas e econômicas que interferem na construção e emancipação do campo cultural enquanto tal. Com base em experiências empíricas e vivências práticas alcançou-se a resultante na qual a ciência e a cultura se interpenetram a fim de delinear os contornos da realidade social em estudo. Levantando um olhar crítico sobre questões como música popular, patrimônio histórico cultural material e imaterial além de debates sobre políticas culturais."


Se houver interesse leia aqui.  Se houver mais interesse ainda ouça também aqui. E que venham bons tempos, após a grande greve.

domingo, 5 de agosto de 2012

Lauda III

Breves anotações sobre Max Weber e a ética do espírito.

 
                                         
Conseguimos até agora reunir alguns elementos e argumentos, aspectos e observações que possam elaborar uma crítica análise de fragmentos da obra A ética protestante e o espírito do capitalismo.

É preciso, então, encontrar, tendo em vista a rigidez metodológica,  as relações contidas no arcabouço da investigação weberiana, acerca do que vem a ser chamado o "geist" do sistema social moderno,  a partir do qual infere-se a concatenação de traços históricos, econômicos, políticos e religiosos que se aglutinam para dar uma forma sociológica bem acabada do que Weber denominará cultura capitalista moderna.

Assim, a emergência de um "ethos" próprio para o "modo de vida de inteiros grupos humanos" tem por base uma sustentação histórica no desenvolvimento e renovação das formas do trabalho além de contar com uma "habilidade peculiar de cálculo para obtenção de lucro" no âmbito da atividade comercial. No contexto da gênese e relações de causalidade que possibilitaram a expansão de tal "espírito do capitalismo", está a aparição de "um [novo] estado mental", uma cosmovisão que aceita-se e melhor adapta-se as novas regras econômicas e políticas da sociedade em desenvovlimento, a sociedae burguesa industrial.

A cosmologia protestante, puritana, calvinista entre outros segmentos possibilitou por parte de seus seguidores a prática de uma espécie de "instinto de aquisição" aliado a doutrina do ascetismo determinariam, segundo Weber, o acúmulo por parte dos protestantes e explicaria seu sucesso em relação aos católicos nos postos de trabalho e no processo de formação educacional entre os "gyminaisen" e os outros centros de formação acadêmica e técnica voltadas para o mercado.

De forma que essa tal "fome de riqueza" baseada no espectro religioso, com o sustentáculo intelectual concretizaram a passagem de uma consciência pré-capitalista para a "capitalista" que segundo Weber afastar-se-ia das explicações de ordem materialista, consolidando a teoria weberiana desta forma, no arranjo do pensamento sociológico alemão, enquanto uma bela crítica ao esquema do materialismo histórico.